sexta-feira, 4 de maio de 2018

Submersão

Na minha alma sempre chove
Então não preciso fugir da chuva gélida
Que banha minha carne exposta.

As águas escoam em minhas terras dérmicas 
Germinando em minhas ranhuras
Transbordando meus sulcos 
Fazendo brotar em meu solo mais inóspito as frágeis plântulas que me vislumbram.

Na minha alma sempre chove,
Chove a garoa que rega minhas dúvidas,
Aonde amadurecem os frutos da minha angústia.
Chove para que cresçam inteirezas,
Das plantas robustas e rudimentares,
Às flores mais suaves e delicadas,
A chuva se encarrega de suas distintas existências.

Na minha alma sempre chove,
Chove a tormenta que alimenta meu ser,
Sacia-me a sede de vida
E embriaga meus sentidos.
É na garoa que minhas flores crescem,
Mas é no vendaval em que minha essência afoita se pronuncia.

Aonde a chuva cai em mim,
Algo há de florescer. 
Mas enquanto não houver sol, 
A chuva que tanto me sustenta,
Também me afoga. 
Mas na minha alma sempre chove
Então, eu aprendi a nadar.

quarta-feira, 14 de março de 2018

O Lobo Solitário

Eu sou um lobo solitário.
Não sei se por escolha,
Ou por ser da minha natureza.
Dentro de mim reside a angústia da inabilidade em compartilhar meus mais intensos sentimentos.
Os impuros, os incertos, os incorretos,
Os inocentes, os incongruentes, os inconvenientes...
Sinto-os, egoistamente, sem ninguém mesmo saber.
Minhas feridas mais profundas, meus medos mais assombrosos, minhas dores mais pungentes, enfrento todas sozinha, pois sou a única que as compreende.
Posso compartilhar muito de mim, meus risos acentuados, minhas poesias bagunçadas, minhas telas nunca finalizadas, mas sou incapaz de revelar minhas entranhas.
Sensações que ainda não foram inventadas palavras o suficiente para descrevê-las, como poderei expressá-las, se consigo apenas senti-las de maneira ímpar?
E assim, meu apego pela minha solidão se eleva sobre a angústia da minha inexpressividade.
A solitude se materializa em meus sentidos. Ela me atormenta, ao mesmo tempo em que me alicia.
O tormento dos pensamentos inexprimíveis que martelam de maneira contínua em minha mente conturbada, um caos parasitário que não pode ser eliminado do meu organismo.
Ou a solidão prazerosa dos meus sonhos mais excêntricos, aqueles que chamam de improváveis, que só eu mesma conheço o deleite que consome meu ser quando penso neles, seguindo as nuvens que se desdobram pela minha janela.
Só eu sou capaz de ouvir meu uivo inexprimível para a lua, que ecoa, frenético, nos cantos intocados da minh'alma.
Eu sou um lobo solitário,
Eu aprecio minha alcateia,
Porém, apenas na solitude sou capaz de me encontrar.

O Céu e os Desnorteados

Convivo com uma constante sensação de que estou me despedaçando ininterruptamente. Que perco fragmentos de mim que já fui, partes de mim que batalhei pra ser. Há buracos para preencher, buracos que um dia foram preenchidos. Sensações de que já fui melhor que isso. Sensações de que já pude ver mais cores, contar mais estrelas, apreciar mais as flores... Estou me perdendo aos poucos, caindo aos pedaços. Juntando os cacos e tentando colar com cola barata. Não sei para onde vou, e se souber, não sei se conseguirei chegar até lá aos pedaços. O saudosismo de uma jovem pela juventude. A insistência da inconstância em permanecer constante. A minha instável batalha para permanecer estável. As minhas forças quebradas para permanecer inteira. Às vezes olho-me no espelho e nem me reconheço mais, de tanto que já me perdi. Espero não perder minha visão, pois enquanto eu puder vislumbrar o brilho das estrelas, eu ainda saberei o meu lugar no universo. Que as estrelas orientem a minha alma errante...