terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Senão a vida apaixonada e boêmia

Quero viver 
Quero estar viva 
Mas quero viver fervorosamente 
Quero sentir a vida como um soco no estômago 
Como quem me quebra os dentes 
E ainda me faz sorrir
Porque de outra forma não sei viver 
Senão a vida intensa e vendaval 
Quero olhar pra fora da minha janela e sentir o vento forte secando as lágrimas na minha face 
Quero dançar com minhas saias compridas e meus pés descalços ao redor da fogueira
E arder como uma bruxa 
Porque outra forma não sei arder 
Quero estar viva
Quero sentir tua carne se fundindo à minha 
Quero ver todas as cores do céu 
Quero experimentar todas as dores pungentes
E todas as alegrias desvairadas
Porque de outra forma não sei viver 
E eu quero continuar viva 
Eu amo estar viva 
Deixem que a vida tome conta mim 
Deixem que eu perca o controle de mim para ela
Pois de outra forma não sei viver
Se não a vida apaixonada e boêmia

"Hangover", 1889 - Henri de Toulouse-Lautrec

Negação

O arrefecer de meus sentidos
Contempla minhas dores 
Como quem orna as próprias feridas 
E suplica aos benquistos o perdão 

As vaidades amordaçadas
Os olhos exauridos
Nada em mim se alumbra
E o que antes era penumbra 
Fez-se imprecisão 

No garoar de minhas angústias 
Neguei à felicidade 
O direito de alojar-se em minhas insidiosas memórias 
Pelo desígnio insondável 
De permanecer fiel 
Ao ser sorumbático que hoje me tornei
Devido às dores que, irrevogavelmente, carreguei
E nunca tive coragem de me desvencilhar

Que o ser humano é fruto de suas amarguras, já sabemos
A felicidade nos cega
Enquanto o sofrimento nos torna conscientes


Picasso.

Realidades

Não sei mais o que é real
As palavras em mim se despendem
E não mais se acomodam
Às vezes eu até esqueço delas

Minhas pinceladas estão se mesclando à minha realidade
Não sei mais o que é de verdade
E o que é feito de tinta
Ou seria a tinta a minha única realidade?
Meus poemas são os únicos que me falam das relvas mornas já esquecidas
Que meus pés tanto procuravam
Só posso confiar em minha poesia
Em meus contos pueris de fantasia

Não lembro mais se aconteceram as lembranças
Porque nunca fui boa em lembrar
Sou capaz de criar minhas próprias memórias
E nelas acredito, como quem foge do desamparo 
Para ter um passado menos pungente
A mente mente e não se sabe mais

Não sei mais o que é real
Ou coisa da minha cabeça
Às vezes sinto que estou ensandecendo
E minha lucidez, enfraquecida
Se arrasta sobre os meus sentidos
Com suas fagulhas de sobriedade
Tentando recuperar esta alma perdida
Que vaga cantando para si
Os versos da embriaguez

Não sei mais o que é real
E talvez nem queira mais saber
Sempre tão dolorosa a realidade
Desmantelando o devaneios dos sonhadores
Ela se posiciona sobre meus olhos e profere
Sou dolorida pois sou sentida por ti
E volto a não saber mais o que é real
Pois a dúvida, p’ra quem sente muito, fere.

Picasso.