sexta-feira, 5 de abril de 2019

Desatino

Fumei seis cigarros ontem
Pra preencher o vazio que tua boca deixou na minha
Antes meus lábios salgados pelo sabor da tua pele
Agora estão ocupados tragando a nicotina
Bebi uma garrafa inteira de vodca ontem
A mais barata que encontrei no mercado
E ainda paguei em notas amassadas
Sentei no banco gelado de uma praça desdenhada
Em uma rua sem nome, porque já não se importam mais com nomes
Ou eu não me importo mais sabê-los
Era noite, e as noites não mentem
Elas nos fustigam de maneira crua
E abrem as feridas expostas
As mariposas se debatem na lamparina
E a fumaça do cigarro se dissolve no céu
Era Você
Sempre foi
E ver você ir não doeu
Porque você nunca esteve
E eu sempre estive... só
Porque senti sozinha
Porque amei sozinha
Mas hoje não vou fumar
Pois quem sabe eu ame sozinha de novo
E dessa vez os poemas irão ficar largados na gaveta
Só vai ler quem antes encontrar a minha alma
Que vaga, vulnerável, em alguma das esquinas em que nunca te perdi

Das Singelezas

Tanto busquei as grandezas 
Evoquei os conflitos da alma 
Fucei na estrumeira da glória
Tanto exigi a compreensão 
Reneguei as sutilezas 
Esperei da vida o esplendor
Para me acomodar à beirada da janela 
Fitando a chuva que mansamente se aninhava sobre os sulcos do concreto
Para perceber que a vida é profundamente simples 
Que ela se manifesta nas miudezas das amplitudes
E se apruma, devagarinho, nas singelezas
A vida, em sua totalidade, acontece na quietude dos gestos atemporais

Ferida

Meu grito silencioso ecoa pelos meus ouvidos conturbados
Meus sentidos inexprimíveis lesionam minha carne tentando se desprender da minha matéria 
Minhas mãos nunca fazem o que digo 
Meus lábios nunca dizem o que eu sinto 
Minhas pernas nunca me levam para um destino
Não tenho controle sobre minha alma
Dependo sempre das minhas emoções 
De mim não saem minhas angústias 
Não se canalizam, não se materializam 
Fica tudo aqui, apertado, na mais delgada nervura
E eu bebo, e pinto, e escrevo, para não sucumbir
Abeirada nas sutilezas da vida, me mantenho em pé por frágeis estruturas 
Em que pintei pequenas margaridas para que não me pareçam tão dolorosas 
Minha essência ferida está de muletas 
Mas ela ainda se arrasta, vagando, em busca das flores e das estrelas