terça-feira, 10 de julho de 2012

O palhaço que nunca sorriu


"Crescer triste ao lado de gente feliz não é lá muito bom, é ruim ver sorrisos todos os dias e não poder sorrir. Por que eu não sorrio? Não sei, nunca encontrei motivos, e isso me faz chorar, e eu odeio chorar. Não sou um palhaço, esse não sou eu, não nasci pra vestir cores, muito menos um nariz vermelho. As noites, borro toda a maquiagem de palhaço no meu travesseiro, acordo de madrugada para lavar ele, pra assim ninguém ver que eu choro. É difícil esconder a sua infelicidade, tenho medo do que eles vão pensar de mim "um palhaço que faz piadas de dia e chora todas as noites". Acordo cedo, já coloco minha fantasia e vou lá tropeçar na frente das crianças, pra elas poderem rir de mim. Por que ninguém faz isso comigo? Por que ninguém tenta me fazer sorrir? Querem tanto que um palhaço faça as pessoas sorrirem, mas nunca tentaram fazer um palhaço sorrir. Cresci sem pai, sem mãe, nem sei de onde venho, não sei nem meu verdadeiro nome, só sei que não nasci pra sorrir, ou pra fazer alguém sorrir. Um dia, no meio de uma apresentação repetitiva do dia-a-dia, uma menininha ficava me encarando, com aqueles olhos enormes e esbugalhados, ela estava com um algodão doce cor-de-rosa na mão, todas as crianças ao seu redor rindo de mim por ter "tropeçado", ela não sorriu, ela apenas me encarou, sem piscar os olhos, aqueles tristes olhos, eu não me aguentei, sai correndo do palco e tive que ir chorar. O dono do circo me viu chorando, ele não se importou em perguntar o que havia acontecido, não se importou com minhas lágrimas, ele estava furioso por eu ter deixado o palco e me mandou embora do circo. Eu implorei que ele não me abandonasse, que ele me deixasse ficar, ele disse que eu nunca tive graça alguma.
 Então porta a fora eu saí, o espetáculo acabou e depois veio a chuva, o circo silencioso e só se ouvia a música triste e melancólica da barraca da bailarina, eu apenas observava o silêncio do circo sentado lá fora. Enquanto estava sentado, arrumando meu nariz de palhaço, aquela menininha apareceu do meu lado, não sei o que ela estava fazendo lá com aquela chuva, mas ela me emprestou o seu guarda-chuva e me deu uma pequena flor, a flor que deixei cair no meio da apresentação. A menina não falou nada, apenas sorriu, eu confuso, aceitei a flor, mas recusei o guarda-chuva, ela estava indo embora, quando tentei devolver o guarda-chuva para ela, ela disse não, apontou para um carro, onde seus pais a aguardavam para leva-la para casa, antes dela ir, puxei o braço dela, tirei o meu nariz de palhaço e entreguei nas mãos dela, não há como descrever o que aqueles olhinhos queriam dizer, ela apenas pegou o nariz vermelho e colocou no seu nariz, deu um sorriso de orelha e orelha e foi embora.
 A menina hoje? É uma grande atriz, ela ficou reconhecida por interpretar um palhaço infeliz, com um nariz vermelho que vocês devem reconhecer, sua peça está em vários cartazes em muitas cidades daqui. E eu? Um simples escritor de peças de teatro, já podem imaginar quem está atuando em minhas peças. O sorriso de uma menina inocente mudou a minha vida, ela foi a primeira pessoa que sorriu pra mim, e sorri até hoje. Nunca mais borrei a minha maquiagem em travesseiros, nem tive de tropeçar para as pessoas gostarem de mim, eu simplesmente contei a minha história, e não sei por quanto tempo ela vai ficar gravada na mente das pessoas, mas só queria alerta-las, para que elas nunca se esqueçam de sorrir, se não tiver motivos pra sorrir,  sorria da falta de motivos, sorria de tudo, ou apenas, sorria." - Tauane Vassoler

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