sábado, 12 de janeiro de 2013

Velho Chapéu Solitário

1940
Carta escrita por George Kennedy

"Ora, cá estou eu novamente, sentado na antiga cadeira do meu falecido avô, balançando como uma criança em um balanço, o barulho das tábuas me fazem pensar, cada vez que vou para frente com a cadeira, para trás, para frente.. Eu penso. Terno desbotado, chapéu ao lado, encima da mesinha feita de pau-brasil que comprei na minha viagem para a Europa, cá estou eu, novamente, me sentindo indistinto, confuso, sempre enfadado, mas sempre cogitando, sempre refletindo. Acendo meu cigarro, a fumaça sobe, faz frio lá fora, posso ver os pingos escorrendo pela janela da velha sala, como se fossem milhares de lágrimas, está chovendo e o tempo está nublado. Livros? Cansei de ler tantos livros, todas as tardes sentado nessa mesma cadeira, nessa mesma situação, lendo e bebendo um café forte, dias sem dormir... 
Estou cansado, cansado de quê, eu não sei dizer. Me lembro da minha falecida esposa, com toda aquela mansuetude magnífica dela, aqueles cabelos encaracolados que ela tanto cuidava... Me lembro dela balançando seus belos cachos e seu vestido florido, o seu preferido, girando no nosso jardim, cantando e rindo. Ela sempre adorou vestidos floridos, ela sempre adorou flores. As flores preferidas dela, que ela cultivava, agora estão murchas, mas não consigo me livrar delas, não consigo me livrar desses pensamentos.
Tenho evitado pensar, mas pensar é o que eu mais faço, dizem que não faço nada, pobre viúvo coitado, perdeu a esposa tão cedo... Mas eu faço, eu penso, penso demais. Às vezes tenho vontade de vestir meu terno e andar pelas ruas lá fora, mas minha esposa fazia muito isso... Moro na sua rua preferida, ela sempre gostou de tranquilidade, então eu economizei anos para poder comprar essa casa no bairro mais tranquilo da cidade, um bairro cheio de árvores e flores, já falei que ela gostava de flores?
Cá estou eu novamente, pensando. Não queria fazer isso, cogito demais, sempre foi meu defeito, penso e penso, mas esqueço de fazer. 
É como se eu não pudesse mais ir pra frente, como se a vida estivesse parado para mim, hora de desembarcar do trem, penso eu. Já pensei em suicídio, mas penso demais para realiza-lo tal. Sou uma pessoa fleuma, tenho muita paciência, muita calma, muitas dúvidas, muitas respostas que não se encaixam, muita angústia, muita saudade, muita, muita, muita...
As contas estão acumulando, estou ficando sem dinheiro, não faço nada para poder pagá-las, não consigo, tenho medo de perder a casa, se este fardo acontecer, espero que minha esposa seja indulgente comigo na outra dimensão.
Desculpe não poder ser tudo para você Clementine, desculpe não querer ter um filho contigo, me desculpe Clementine...
Cá estou eu, falando sozinho, será que alguém lê as minhas cartas? Espero que esteja lendo Clementine. 
Meus parentes não mantém mais contato comigo, estão quase todos mortos, só sobrou eu, eu e meu pensamento, eu e a velha cadeira do meu avô, eu e o jardim murcho de Clementine. 
Clementine sempre dizia que eu era magnificente, estávamos apaixonados, eu pela doçura dela e seu sorriso esplêndido. Ela adorava cantar, sua voz fascinava qualquer um, sua voz é o que eu mais desejo ouvir no momento, é uma das coisas na qual sinto mais falta. 
Quando não penso em Clementine, penso no meu irmão, morto na guerra, penso nas brincadeiras de quando éramos crianças, dos castelos de areia construídos na beira do mar. Me lembro das ondas, do barulho das ondas, me lembro que a maré sempre aumentava com a luz do luar, eu e meu irmão fugíamos para observar tal evento. Me lembro das manhãs na praia, nossa mãe cozinhando e nosso pai contando histórias para nós, os contos dos Irmãos Grimm, nunca me esqueço. Meu pai faleceu cedo também, a bebida não permitiu que ele visse seus dois filhos crescerem, minha mãe entrou em depressão com sua morte, a nossa vida nunca mais foi a mesma, até eu encontrar Clementine.
Clementine... Tudo me leva à você Clementine, tudo me lembra você.
Clementine adorava o piano, mas não tínhamos dinheiro para comprar um, então, toda a madrugada eu à levava para uma grande orquestra, que as noites ficava fechada, mas sempre dávamos um jeito de entrar e fugir dos guardas... Lá dentro, Clementine tocava piano, ela tocava muito bem, com tanta ternura, tanta doçura, é inexplicável, também sinto falta disso. 
Clementine... Clementine... Me desculpe por isso, eu queria ir com você, queria estar com você.
Ficarei balançando essa cadeira até minha morte, eu à espero, não a temo, ela tirou você de mim, que era o que eu mais temia, mas agora, eu quero ir junto, quero ir até você. 
Vou dormir Clementine, na cama em que costumávamos dormir juntos, abraçados, agora sobra tanto espaço... Sinto uma nostalgia, uma melancolia, mas já acostumei, amanhã vou escreverei outra carta para você, como faço todos os dias. Eu te amo."

George falece nessa madrugada, não sabem como, não há vestígios de veneno ou coisa do tipo, seu corpo foi encontrado, junto com a carta e todas as outras que ele guardava em um baú. Também mais abaixo da carta, encontraram uma escrita cuja a letra não era de George, até hoje é um mistério, estava escrito assim:
Durma com os anjos meu amor, estarei te esperando do outro lado. De: sua flor do campo.

- Tauane Vassoler

Bom, gente, esse texto conta a história de um homem solitário, que perdeu tudo de bom na sua vida, fala sobre seus pensamentos, sobre suas reflexões, lembranças, tudo em apenas uma das mil cartas que ele escrevia para Clementine todos os dias. Me inspirei naqueles dias em que sentamos, sem vontade de fazer nada, apenas pensando, sentindo falta, refletindo, todo mundo faz isso, George fazia isso demais, por isso colocava tudo no papel, esperando que Clementine lesse. E eu acho que ela leu.

O que acharam?

4 comentários:

  1. "Livros? Cansei de ler tantos livros" Eu não me identifiquei com esta frase.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Quando digo pra essa menina escrever um livro ela diz que não conseguiria! Olha esse texto!

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