domingo, 10 de fevereiro de 2013

Betina


Era tarde, noite, dia, o sol brilhava e a lua cantava, as estrelas rodopiavam no céu como crianças que brincam em um parque ao entardecer, frio e quente, claro e escuro, tudo está indistinto, indistinto como Betina. As pessoas à olham e dizem que ela é uma criança deplorável, perdeu seus pais, não tem amigos, não tem nada, nada além de seus sonhos presos em sua mente. 
Ela costuma observar todas as tardes, da janela do orfanato, as crianças brincando no parque ao lado, elas riam, elas pulam, elas brincam, assim como as estrelas às noites. Betina tem uma grande vontade de conhecer aquelas crianças, e ela tem mais vontade ainda perguntar o porquê delas serem tão felizes. 
Betina não tem muitos amigos no orfanato, seu melhor amigo é o Guga, seu ursinho de pelúcia que encontrou em um armário do orfanato. Ela nunca se interessou muito por brincadeiras. Presa em seu quarto velho e escuro, com apenas uma cama, um armário caindo aos pedaços e uma mesinha com um abajur para as noites de escuridão, Betina encontrava amenidade nos livros, nas histórias fantásticas sobre fadas, duendes ou qualquer outro ser que diziam ser inexistente, esse era o mundo de Betina, essa era a sua vida, algo que ninguém poderia tirar dela. Nos recreios, Betina sempre ia para a biblioteca, chegou até fazer amizade com o velho bibliotecário, as vezes, quando Betina tinha tempo, parava para ouvir as histórias fantásticas dele, e por mais doidas que suas histórias fossem, Betina sempre acreditava nelas, para Betina, o velho bibliotecário era um Mago. A diretora do orfanato era uma mulher brava, com olhar carrancudo, de aparência lastimável, para Betina a diretora era uma bruxa malvada, e assim por diante.
Betina era dona de uma grande audácia, de uma grande imaginação, uma grande impavidez, mas todas as suas qualidades, ficavam escondidas detrás de seu rosto com olhos esbugalhados.
Nas noites de chuva, quando os trovões caiam do céu como magia negra, todas as crianças do orfanato gritavam e sentiam medo, Betina não "Ora quem sou eu para sentir medo? Sou Betina, a Grande, A Forte, A Corajosa, sou A Espada, sou O Arco, sou A Poderosa", assim pensava Betina, enquanto ouvia os gritos das outras crianças dentro de seus quartos isolados. 
Todos os quartos eram iguais, com uma aparência execrável, assustadora, macabra, mas o de Betina não, Betina fazia com que seu quarto fosse especial, as vezes ele se transformava em um castelo, com reis e rainhas, outras vezes, uma floresta encantada, com fadas, duendes, sereias e até dragões. Não importa o lugar em que ela estivesse, tudo era como Betina imaginava, Betina podia ver a beleza na miséria, a luz na escuridão, a vida na morte. 
Betina tinha a coragem de um exército de 100 mil homens, tinha a imaginação mais poderosa e magnífica que qualquer ser poderia ter, Betina, apensar de ter apenas 9 anos, nunca ter visto o mundo, é o diamante mais valioso que se pode encontrar no meio de muitos outros diamantes, mas o diamante de Betina não brilha por fora, ele brilha por dentro.
Betina já voou, ela já teve uma casa subterrânea, ela já mergulhou no mais fundo oceano e já alcançou as estrelas, tudo isso dentro de um quarto, e acreditem, ela o fez.
Algum dia Betina vai crescer, ela vai sair do orfanato, ter sua própria vida, ser livre como ela sempre sonhou, mas ela aprendeu uma das lições de vida mais importantes na qual ela vai carregar pelo resto de sua vida, não se pode aprisionar uma mente livre.

- Tauane Vassoler

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