quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Silêncio

 Quando estamos na companhia de uma pessoa íntima, é normal que fiquemos em silêncio, sem constrangimentos, pois a sua companhia não julga teu silêncio, ela não pergunta por quê, ela não duvida. Tenho constantes silêncios momentâneos (que podem durar muito tempo) ao lado de companhias assim, sinto-me confortável no seu silêncio, no meu silêncio. É assim que sinto-me com minha mãe... Somos pessoas tão diferentes, mas no silêncio, somos tão parecidas e nos entendemos tão bem... Sentadas, ao calar do pôr do sol, enquanto leio meu livro, com minha cadelinha em meus pés e minha mãe ao meu lado, mergulhada no seu  próprio silêncio, seus olhos estão pensativos... Olhos de uma pessoa que pensa silenciosamente. Até que então, ela olhou para mim, quebrando a barreira do silêncio que estava entre nós, e disse:
- Você quer mesmo ir embora algum dia? Tem mesmo de ir pra longe?
 Reparei que seus olhos estavam um pouco apreensivos, ela esteve pensando em uma conversa que tivemos alguns dias atrás, descobri isso pelas perguntas que ela havia me lançado... Eu lhe falei algumas coisas que não devia ter falado, eu falei dos meus sentimentos que sentem-se presos nesta casa, falei da minha sede de liberdade e aventura, querer explorar, viajar, conhecer, descobrir, viver, longe de tudo e de todos... Nós sempre falamos sobre isso, e minha mãe, sempre relança um olhar pungente quando expresso tais palavras de forma veemente, mas a nossa última conversa foi diferente... Costumo falar com voracidade, teimosia, como alguém que quer se libertar das correntes, alguém que não quer sentir-se infeliz, alguém que se recusa a não ser ouvido e compreendido, a não ser aceito. Infeliz eu não sou, mas creio que há muito mais felicidade nos cantos do mundo, creio que há muito mais vida, aventuras, acredito que, o verdadeiro significado de viver, não é nascer, crescer, estudar, se formar, trabalhar, trabalhar e morrer, e eu quero encontrar o meu real significado. Eu nunca consigo me expressar direito, sou sempre levada como uma revoltada que fala sem pensar, um pouco impulsiva, talvez, ou sim... Impetuosa, teimosa... Eu me engasgo com minhas próprias palavras, até agradeço que isso aconteça comigo algumas vezes, para eu não falar o que está entalado na garganta e engolir de volta, antes que eu possa ferir alguém com minhas palavras imprudentes... Mas na nossa última conversa, isso infelizmente não ocorreu, eu sucumbi ao meu instinto impulsivo, eu disse para minha mãe que não há formas de eu ser totalmente feliz aqui. Havíamos brigado por causa de alguns motivos estúpidos, um deles, é que ela detesta que eu ande pela natureza sozinha, ela detesta que eu queira fazer tudo sozinha, então, ela se ofereceu para ir junto comigo nas minhas caminhadas, eu neguei, disse que preferia ir sozinha e que ela me atrapalharia... "Então é isso? Eu sou mesmo o mau karma da tua vida, sou eu quem te atrapalho?", ela perguntou-me. Eu não respondi. É claro que minha mãe é algo intrínseco na minha vida, é claro que eu a amo... Mas... Não costumo me amarrar muito às coisas, até porque, não sei dar nós apertados, e quando as cordas largam-se, eu não as seguro, eu me desapego delas... Quando me amarro em alguma coisa, costumo já deixar a corda folgada, não a seguro com força, pois se algum dia eu tiver que me desamarrar, será mais fácil. Só há uma corda que eu seguro com força e que não largo por nada, mas essa corda não foi feita para ser amarrada, sim para ser seguida, como se alguém estivesse escalando uma alta montanha, apoiando-se pela corda, esperando que ela te leve à algum lugar... Essa corda tem vários nomes, destino, desejos, sonhos, vontades... futuro.
- Sabe Tau, eu tenho você agora, em meus braços, junto a mim, como eu sempre tive... Mas mesmo assim, eu sempre te senti distante, é como se você não estivesse aqui, mesmo abraçando-a, você está longe, distante, em outro lugar, longe daqui. Você sempre fugia de mim, desde criança, você sempre costumava fugir das coisas que te prendiam, você sempre queria mais, parece que as coisas sempre foram pequenas pra você, de alguma forma.
 E o silêncio tomou conta do recinto novamente. Não conseguia mais ler meu livro, estava dominada pelos meus pensamentos silenciosos, mas ao mesmo tempo, turbulentos, como uma nuvem de tempestades e trovões... "Pra você, tudo sempre foi pequeno demais"... Me senti como uma pessoa pessimista e insatisfeita com a vida ao ouvir tais palavras, mas depois de refletir, finalmente entendi. Não é pessimismo, é demasiado otimismo, não vejo as coisas pequenas, é que sempre acho que elas podem ser maiores, melhores, mais fascinantes, mais extraordinárias. Eu nunca gostei de mesmice, me cansava das coisas fácil, eu mudava os móveis do meu quarto uma vez por semana, eu sempre achava que podia ficar melhor, sempre achava que podia superar minhas expectativas... Eu conforto-me nos braços da minha mãe, meu corpo conforta-se, meu coração se aquece, mas minha mente, está sempre atenta, distante, vagando por aí, deliciando-se em desejos, deleitando-se dos meus medos, me confundindo, me orientando.
 Sempre fui uma pessoa que vive do desregramento, sempre fui considerada uma pessoa de forte intrepidez, uma pessoa valente, audaciosa, afoita... Sempre me senti independente... Eu gosto de companhia, acontece que, a minha idiossincrasia não costuma envolver pessoas.
 Nunca irei deixar ou esquecer as pessoas que eu amo ou que já amei, mesmo distante, eu vou estar com essas pessoas, pois como minha mãe disse, meu coração e minha alma vão onde querem ir, e estão onde querem estar, afinal, o mundo sempre foi pequeno demais para mim, então, posso estar à quilômetros e quilômetros longe daqui, mas se eu esticar o braço, vou conseguir sentir minha mãe, como eu sempre senti e sempre irei sentir.

Um comentário:

  1. Infelizmente, acho que de alguma forma nossos pais sempre vãos nos achar pequenos, ou fracos, e sempre vão nos julgar imaturos/novos demais para fazer algo que desejamos, e sempre vão interpretar como um ato de egoísmo da nossa parte, por acharem que nós os estamos deixando. E isso realmente nos faz nos sentir mal porque não os estamos deixando, mas precisamos da nossa liberdade... concordo que não devemos nos amarrar demais às pessoas, de um jeito ou de outro, algumas vezes isso só nos faz mal. Mas acho que nunca vamos conseguir nos desvencilhar desse laço eterno que é a nossa família, até porque nós a amamos. Pena que para eles é difícil aceitar o fato de que nós crescemos, e que precisamos ir... mas nunca iremos deixá-los totalmente, eles sempre andarão conosco, bem no fundo do nosso coração. Espero que algum dia eles entendam a necessidade que nós temos de liberdade, de soltar nossas amarras, de pisar em novos terrenos, de buscar a felicidade.
    Espero que sua mãe também entenda, e você tem sorte de ter ela sempre junto com você, isso é algo muito legal. É algo realmente valioso, é algo único.

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