domingo, 30 de março de 2014

Clonando pensamentos

 Às vezes eu só queria um clone de mim. Uma pessoa para sentar no meio do nada e jogar conversa fora, do amanhecer até o anoitecer, alguém que me ouvisse, falasse e me entendesse, alguém que compreendesse o mundo como eu, alguém para que quando eu subisse alto em alguma árvore, não me mandasse descer, mas sim, me acompanhasse, até o topo, para apreciar a vista. Discutir sobre os assuntos mais fúteis e rir dos assuntos mais sérios. Conversaríamos até cansarmos, mas a gente nunca cansaria, ficaríamos no ócio, só olhando para os lados, para cima, deitadas entre as folhas, apenas sentindo, apenas ouvindo. Às noites uma fogueira ardente, com chamas resplandescentes, enroladas em velhos cobertores, ouvindo os sons da noite, observando as estrelas e pensando em mil possibilidades. Sem compromissos, sem preocupações, e se houvessem preocupações, riríamos delas, e se houvessem compromissos, fugiríamos deles. Só o vento seria capaz de cortar o nosso silêncio. Ninguém poderia nos julgar, pois não haveria ninguém lá, ninguém poderia nos mandar, pois não haveria ninguém para mandar lá, apenas duas pessoas desregradas, num ócio profundo. Assim, apenas nós, dia após dia, observando o pôr do sol todos de todas as manhãs despertadas pelo som dos pássaros, contando as fases da lua, procurando formas nas nuvens, agachadas debaixo de uma grande árvore em dias de chuva, imitando os pássaros e colhendo os frutos, assim, longe de tudo. Não haveria ninguém lá. Apenas eu.

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