sexta-feira, 14 de março de 2014

Correndo com a Lua



 Não tenho inspiração para escrever, perdi todos os meus devaneios e meus argumentos pensando em coisas fúteis e banais, coisas que vêm me atormentando, fazendo-me sentir agastada. Estou me preocupando com coisas que nunca me preocupei, estou falando sobre coisas que nunca falei, ouvindo o que nunca almejei ouvir, estou exausta, minha mente inquieta e confusa encontra-se em estado lastimável, latejando o tempo todo, como se um martelo batesse nela, e a cada martelada, um sobejo de palavras e pensamentos confusos são digeridos por minha mente tumultuosa....  Porém, existe um lugar, em algum tempo, em alguma latitude, algum momento, algum sentimento, em que minha mente pode enfim descansar em paz.

 "How happy I am to be able to wander among bushes and herbs, under trees and over rocks; no man can love the country as I love it. Woods, trees and rocks send back the echo that man desires."

  Quando olho pra cima e vejo o sol refletindo sobre as folhas verdes das grandes árvores... Quando ouço o barulho do vento sussurrar em meu ouvido, como se eu estivesse voando, como se ele me falasse alguma coisa... A brisa a bater no meu rosto, fazendo-me fechar os olhos e sentir-me em uma espécie de paraíso. Quando caminho descalço, meus pés sentem a natureza, as folhas secas a racharem-se sob meus pés libertinos, os espinhos a perfurarem-me, os galhos a cortarem-me, não existe dor nisso, apenas novas sensações. 
 Minha professora de português disse que, quando não temos inspiração, devemos escrever sobre a falta dela... E eu pensei... Por que não a origem dela? Sei que cada um tem a sua fonte de inspiração, ou um amor sofrido, um amigo desabrido, um homem perdido, uma vontade em desabrigo... Todos temos algo, ou alguém, que nos faz refletir, algo que nos incentive, nos motive, algo que nos faz feliz, talvez por algum motivo estúpido, ou simplesmente, por prazer.

 "I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms, and, if it proved to be mean, why then to get the whole and genuine meanness of it, and publish its meanness to the world; or if it were sublime, to know it by experience, and be able to give a true account of it in my next excursion."

  Tenho um senso crítico muito profuso, minha mente trabalha constantemente, absorvendo tudo e todos a qual ela cogita. Não posso controlá-la, ela simplesmente não descansa, ela tem necessidade de analisar cada detalhe que capta, apenas os detalhes que quero ver, os que não são do meu interesse, acabam escapando despercebidos, e muitas vezes, coisas de grande importância acabam passando despercebidas pela minha mente alvoroçada. 
 Eu tenho prazer em andar pela natureza, é como se fosse um descanso para a mente, um novo vigor, uma nova perspectiva. Enquanto caminho, observando as árvores, ouvindo os pássaros, os insetos, as borboletas que passam diante dos meus olhos como estrelas cadentes à noite feito vultos, o cheiro do ambiente úmido, as folhas a caírem, as árvores que nem sequer nasceram, mas sei que estão lá, prontas para aderirem suas raízes na terra até o dia em que o homem as cortar. Também reflito, e penso, por algum motivo, sinto-me mais à vontade, não há mais relutâncias dentro de mim, não mais marteladas, não mais alvoroços, apenas, eu e minha mente, em uma branda harmonia, sentindo as palavras silenciosos da natureza ecoarem aos redores. Para onde vou? Não sei, vago sem rumo, a única coisa que sei, é que não quero sair de lá, sua companhia me faz bem, é como se ela me ouvisse, me compreendesse, purificasse meus pensamentos. Minhas dúvidas somem naquele momento, minhas inseguranças, meus temores... É como se alguém pegasse na sua mão e dissesse que iria ficar tudo bem.

"I have never found a companion that was so companionable as solitude."

 Vai ficar tudo bem... Vai. Longe das lábias das pessoas, de suas vidas falsas, de seus objetivos pretensiosos, suas características prepotentes e suas condutas egoístas e gananciosas, longe disso, eu enxergo a verdade. Longe do medo, da angústia, eu posso ver o que ninguém pode ver, sentir o que ninguém pode sentir e ouvir o que ninguém pode ouvir, porque estão todos ocupados, "vivendo", ou melhor, sobrevivendo em suas selvas de concreto, muitos infelizes com seus trabalhos, mas felizes com seus salários, e a maioria, infeliz com os dois. 
 Em uma floresta, há muita diversidade de vida convivendo em harmonia... Uma floresta pode estar cheia de árvores, arbustos e plantas, mas sempre há espaço para uma nova raiz. É como se as plantas agissem juntas, "trocando" seus nutrientes, abrindo espaço, produzindo novas plantas... Estão todas fixas ao chão, porém, ao mesmo tempo, são livres, para florescer, crescer, desabrochar o quanto quiserem. Uma "sociedade" sem regras de condutas, sem leis, sem padrões, mas tão mais organizada e harmonizada que nós, seres racionais. As plantas sabem a sua função, mas... qual é a nossa função? 
  "Quero viver em uma casa no meio do nada", digo eu, "Mas por quê? O que fará lá? O que o mato pode lhe trazer? Como vai viver?" perguntam. E o que uma vida indesejada pode lhe trazer? Qual é a função de cada um? Por que estamos aqui? Por que precisamos ter vidas parecidas para sermos alguém? Por que precisamos de grandes quantias de dinheiro para enfim sermos felizes? Por que precisamos de alguém nos falando o que fazer? Ou como agir ou ser? Como subir na vida, como ser respeitado, ser aceitado, admirado, como fazer parte de uma sociedade que escolhe o que você deve ser e como deve. Pergunte a uma árvore qual é o significado da vida, e com seu silêncio, ela lhe dirá muito mais do que um homem engravatado que esquecera de pegar o filho na escola porque estava muito ocupado com os negócios. Porque simplesmente não existe um significado universal, cada significado pode ser encontrado em nosso silêncio. E eu quero encontrar o meu, o meu rumo, o meu significado. Talvez em um buraco eu encontre-o, debaixo de uma pedra, dentro de um pote, não importa, eu não preciso ser como eles para ser alguém, eu já sou alguém.

 "Not those all who wander are lost"

 Agora, encontro-me correndo, sob a luz do luar em uma noite de ventanias. Há nuvens no céu noturno, cobrindo as estrelas, mas, por algum motivo, algum "acaso", a lua não está escondida, ela está aparecendo em uma fresta entre as nuvens, a brilhar, em frente a mim. Estou correndo, em direção à lua, não sei para onde estou indo, mas quero alcançá-la, quero ouvir o que ela tem para me dizer. Ouço o vento "cortando" em meus ouvidos, não estou cansada, quando olho para os lados, posso ver as árvores correndo comigo, iluminadas na escuridão da noite apenas porque as nuvens espessas permitiram que a lua guiasse o nosso caminho. Continuei a correr, sem rumo. Não pude chegar até a lua. 
 Talvez seja loucura, oh sim, é sim loucura, sair em uma noite fria ao correr pelas florestas, que tipo de pessoa faz isso?! Sou completamente louca...Sim, sou, na visão de uma sociedade onde o correto é tirar vantagem dos fracos para encher os bolsos de papel que será gastado tão futilmente como foi adquirido. Talvez eu seja louca, mas agradeço por ser louca nesta sociedade, foi em momentos como esse, momentos de loucura, que pude enfim desvendar algumas incógnitas. A loucura mostra-me sensações que nunca eu sentira, emoções que nunca eu tivera, momentos que eu nunca vivera... A loucura mostrou-me muitas coisas que só ela pode mostrar, mostrou-me a verdade, a mentira, mostrou-me o que aqueles que a ignoram não podem ver, a simplicidade de se viver. A loucura só é considerada louca, porque é ignorada e desconhecida, então, para mim, loucos seriam eles, que mal se conhecem e ignoram-se uns aos outros.

“Here’s to the crazy ones.
The misfits. The rebels. The troublemakers.
The round pegs in the square holes.

The ones who see things differently.

They’re not fond of rules.

And they have no respect for the status quo.

You can praise them, disagree with them, quote them,

disbelieve them, glorify or vilify them.

About the only thing you can’t do is ignore them.

Because they change things.
They invent. They imagine.
They heal. They explore. They create. They inspire.
They push the human race forward.
Maybe they have to be crazy.
How else can you stare at an empty canvas and see a work of art?
Or sit in silence and hear a song that’s never been written?
Or gaze at a red planet and see a laboratory on wheels?
While some may see them as the crazy ones, we see genius.
Because the people who are crazy enough to think they can change the world,
are the ones who do…”


 Com o silêncio da natureza eu acabei encontrando a minha verdade. As pegadas que eu deixei em cada canto serão permanentes, pois meus pensamentos andaram com elas. Cada prazer que senti, cada vez que as raízes de uma velha e grande árvore serviram de apoio para minhas lamentações, cada vez que um pássaro respondeu meu assobio, cada vez que um galho cedeu para me ajudar a escalar, eu posso senti-los agora. É uma perfeita harmonia, é algo inexplicável, uma sensação revigorante, uma nova vida, um novo significado. Andando pelas florestas, acabei percebendo que eu não precisava ir até a lua para alcançá-la. Eu já alcancei a lua. 

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