terça-feira, 22 de abril de 2014

Fragmentos de cartas nunca lidas para a minha amada



"Está tão frio lá fora... Pode sentir a presença do frio? Ou sente a ausência do calor? O que você sente? Mãos nos bolsos, um sorriso no rosto, um nariz vermelho, olhos baixos, o dia escurece, anoitece, a lua dança entre as nuvens. Está tão frio lá fora, mas dentro de mim, posso sentir um calor que jamais fui capaz de sentir, ele me aquece de forma suave, com uma mansuetude, deixa-me aquecido, nem as chamas resplandescentes de uma enorme fogueira podem representar o quão quente está dentro de mim, um calor que me conforta, um calor, não físico, mas um calor... uma luz, uma esperança..."

"Um dia falaram-me que as gotas de chuva que escorriam na janela do meu quarto eram as lágrimas que já escorreram do meu rosto um dia... Pois chove muito... Observo silencioso as gostas escorrerem vagarosamente... Posso eu já ter chorado tanto? E tais lágrimas, foram derramadas pela dor, pela alegria, pelo amor, pelo ódio? Por que foram derramadas? Por quem foram derramadas? Nunca me falaram que as lágrimas vinham de nuvens de ressentimentos e sentimentos conturbados, confusos... seu coração enche-se de lágrimas, e então, chega a um ponto que ele explode. Nunca me falaram que depois das chuvas tempestuosas, o sol vem, e as gotas evaporam, dando espaço para o brilho do sol entrar pela janela e clarear o ambiente escuro, isso eu tive que aprender sozinho, tive essa sensação todas as vezes que sorriu para mim. As pessoas lhe ensinam como sofrer, mas não como aprender com esse sofrimento ou como superá-lo. Talvez seja porque elas preferem sofrer, do que talvez, encarar a realidade."

"Prometi eu que iria lhe esperar, minha amada, mas como? Como esperar por algo que nunca vai chegar até você? Como esperar que as ondas do outro lado do mundo cheguem até a minha praia? "O tempo que for preciso", e se esse tempo não existir, não passar de uma ilusão? Não posso controlar o vento, nem as ondas, nem quando o sol decide ou não aparecer, não posso controlar o tempo, não posso controlar você, não posso me controlar um segundo a mais..."

"Hipérboles, hipérboles... Hipérboles lacônicas. Posso eu sofrer tanto em silêncio? Queria explodir de uma vez por todas... Seriam palavras oblíquas, silenciadas pela minha sucinta esperança? A minha esperança que dentro de mim tanto ardia, esmoída por um desejo escaldante e tuas palavras pungentes."

"Um dia você virou as costas para a mim e caminhou, sem rumo, perguntei onde você ia, você olhou para trás, sorriu e respondeu 'eu vou com o vento', nunca entendi exatamente o que queria dizer, porém agora, infelizmente, eu entendo. A brisa nos causa uma sensação de liberdade, o vento faz com que queiramos voar, acompanhá-lo pelo horizonte e nunca mais voltar, mas ele é efêmero, ele cessa, ela muda o rumo, ele te abandona... Você me abandonou, você é o vento, você voou para longe de mim... Achei que quando trocassem as estações, sentiria a brisa do seu sorriso sussurrar em meu ouvido novamente, então eu fecharia os olhos e sentiria tuas mãos entrelaçadas entre as minhas, mas eu descobri que na minha terra só existe o inverno, e você é a primavera... Descobri que no meu mar salgado, você é a água doce, pura, cristalina..."

"Você furta meu sono, esmaga as minhas esperanças, destrói minhas expectativas, mas aumenta minha vontade, engrandece minha saudade e enche meus olhos de lágrimas... Sinto isso mesmo você estando tão distante, pode imaginar o que fazer comigo quando eu enfim posso ouvir sua respiração? Você abarrota meus medos, minha respiração fica ofegante, um aperto no peito, uma leveza no sorriso... O que tu fazes comigo, ninguém jamais fez, minha amada."

"Quando você caminha sobre a terra seca e inóspita, flores nascem em suas pegadas. Quando você entra em um ambiente escuro, ele brilha. Quando você coloca suas mãos geladas sobre as minhas, elas aquecem-se... com você, tudo o que é pequeno torna-se grande. Tudo o que é privado de cor, com você, colore-se. O sol está escondido entre as nuvens, não podemos vê-lo, mas quando estas comigo, eu sei que ele está lá, e eu sinto o seu brilho, seus raios sobre mim, por algum motivo, quando estas comigo, ele decide brilhar mais, ele brilha para mim, eu sei, ele pode brilhar para todos, mas ele só aquece aqueles que se permitem aquecerem-se, ele só é brilhante para aqueles que permitem-se a tirar as vendas dos olhos, só esses sabem usufruir, colher os verdadeiros frutos que uma árvore pode lhe proporcionar, são aqueles, os únicos capazes de entender o significado de amar."

"Torture-me, torture-me mais! Fulmine-me com sua apatia. Você é aquele obstáculo que eu sempre me deparo no caminho, mas que ao invés de afastá-lo, carrego-o comigo, na esperança de que algum dia ele deixe de ser um obstáculo, um obstáculo que eu tanto almejo..."

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