segunda-feira, 28 de abril de 2014

Velho homem de casaco amarelo

Solitude. by nexxxxxx
Velho homem de casaco amarelo. Pegue teu guarda-chuva, vai chover esta noite. Oh noite possuidora de teus torpes pensamentos. Largue o conhaque, apague o cigarro, já escureceu, mas na mesa deste bar, tu nem vês o sol nascer, o relógio afogou-se, junto com tuas mágoas, as janelas fecharam-se, assim como teus olhos.
Não me perguntes o porquê, sei que te deprime olhar para o céu acinzentado, coberto de fios que unem vozes e separam abraços, e de nuvens obscuras que vivem em um ciclo vicioso do destino, sei que teus dias estão moribundos, mas não te amoles, não hoje, levanta-te. 
Estás tão triste, nem chorar tu não choras mais, estás cansado de derramar as tuas lágrimas dentro do teu copo? Ela mistura-se com o álcool, e então, você a bebe, assim como faz com tudo o que te entristece... tu engoles. 
Por que as noites são tão compridas?
Por que os dias são tão enfadonhos?
Por que quando corro, meus passos ficam curtos?
Por que quando caminho vagarosamente, meus passos se apressam?
Por que preferem contar dinheiro do que as folhas de uma árvore?
Por que preferem abraçar causas a abraçar pessoas?
Engula, engula tudo o que te faz sofrer, assim, quem sabe, teus dias fiquem mais ponderados, mas tu sabes que teu coração não é isento ao desejo ardente das tuas noites de sono perdidas.
Nunca foi um sujeito impassivo, entregou-se, sem especular as causas, sem questionar as consequências, entregou-se, assim como as folhas de uma árvore de outono entregam-se ao vento forte, que as leva para longe... Longe das raízes que um dia já as fez sofrer, longe das lembranças... Mas também, longe dos bons frutos, que uma árvore da vida pode lhe oferecer.
Cabisbaixo como o violino do violinista da esquina serena e solitária, da esquina escura, iluminada apenas por um único poste de luz distante, tu não vês mais os rostos, apenas as sombras, assim define-se tua vida, em sombras, a tua da tua vida é desprovida de postes capazes de iluminar o caminho, assim cegamente, continuas seguindo... Seguindo as sombras, sombras em meio às sombras. 
Modorras, onde estão?! Desprovido de sono, uma escassez de mansuetude e uma conturbação de pensamentos profusos... Sonos efêmeros, pensamentos perduráveis, pobre homem de casaco amarelo, o que faço para te tirar daí? Desse sufoco, do âmago do sofrimento, desse teu clima intempérie?
Tu terminavas teus poemas com epigramas, hoje, tu termina-os em lágrimas, e teus poemas, terminam amassados em uma velha lixeira azulada, velha como teu casaco, azulada como a cor do céu radiante, e o amarelo? A cor que te lembra o sol, o sol que um dia costumava brilhar através da janela dos teus olhos precisos. 
Não sei quem está mais lasso, teu corpo ou tua alma, minhas palavras já estão cambaleando também.
Meu velho, tu não és velho, velhos são teus pensamentos, que refletem a tua alma.
Engula, engula, depois respire ofegante, lutando contra teus pensamentos contenciosos, peço-te, meu velho, que fiques comedido para o verão, deixe de ser desdenhoso, deixe dessa apatia oportunista... Se eu não posso te mostrar o lado refulgente da vida, espero que ao menos os raios de sol o façam.

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