segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Versão Ridicularizada de Jane Austen


 Como todo o leitor fiel, obviamente, tem o papel de defender o seu tão amado escritor preferido (ou claro, tem os mais reservados que preferem manter o silêncio sobre o assunto, porém nunca fui uma pessoa silenciada e raramente perco a oportunidade de defender alguma coisa), e é por isso que estou aqui. Ah, não quero fazer ninguém ler Jane Austen (mas se quiser, aconselho, é bom demais), eu quero apenas defendê-la de alguns argumentos estúpidos e inválidos que acabo lendo de pessoas que nunca pegaram um livro da Srta. Austen na mão, oh yes, eu tenho o dom de saber quem lê os livros ou não, é só ver os argumentos da pessoa. Os livros na qual critiquei, eu já li (ou pelo menos tentei), e devo admitir, não tenho saco para romances como John Green, Nicholas Sparks, Stephenie Meyer e E.L. James, e sim, a tão "amada" por todos Clarice Lispector, mas, por incrível que pareça, sou uma fã absurdamente devotada a Jane Austen, tudo bem que eu tenho uma grande preferência por clássicos, mas não é o fato de ser um clássico nesse caso (bem, não apenas).
 Não me considero uma pessoa lá tão romântica, talvez porque eu não costumo pensar muito sobre o assunto na minha vida (romance, relacionamentos sérios etc), então, por que sou tão fã de Jane Austen? Eu já li Orgulho e Preconceito umas seis ou sete vezes, a primeira vez eu li com doze anos, e com treze comprei TODOS os livros da Jane Austen e acabei devorando-os em poucos dias (induzi até minha mãe a lê-los, e ela adorou). Quando falam em Austen já pensam em romance e mimimi (água com açúcar), pois eu digo, a pessoa que pensa que Jane Austen é só romance, só Elizabeth e Darcy trocando olhares o palavras desabridas, estão muito enganados. Claro, conheci Jane Austen com uns doze anos, mas o que mais eu amei naquele livro - que foi um dos primeiros livros que li em apenas um dia - foi, claro, a heroína Elizabeth Bennet, talvez pelo fato de que eu me identificasse com ela demasiadamente, ou, simplesmente por ela. Darcy?!? Quem é Darcy perto de Elizabeth?! haha Okay, também nutro um grande carinho por ele, mas o fato é, o que faz os livros de Austen, não são os romances sobre os protagonistas (apenas), mas sim, as advertências, revoltas, sátiras e críticas sobre a sociedade da época da própria Jane Austen. Os livro de Jane são um "protesto", cada personagem dos livros retrata muito bem um esteriótipo da época em que ela vivia, menininhas apaixonadas e tolas, mães obcecadas por casamentos, mulheres fofoqueiras, o desprezo da classe alta pelos demais, a divergências por conta das classes sociais, o orgulho, os preconceitos da época, principalmente contra as mulheres, sim, ninguém te avisou? Jane Austen era feminista! "Mas como assim feminista, naquela época?", bem, obviamente o termo feminista não existia nos tempos da Regência Britânica, mas, isso não impedia uma mulher independente e convicta como Austen a protestar e levar à tona o assunto. Tudo bem, não ficava explícito assim, daria pra se dizer que ela era uma feminista "encubada", pois suas críticas ao machismo, a opressão, a generalização e as obrigações das mulheres na época estão nas entrelinhas de TODOS os seus livros, em situações que devem ser interpretadas, pois bem, todas as protagonistas dos seus livros saem das generalizações das mulheres tolas da época, ou seja, as personagens eram os próprios protestos de Austen, o jeito que ela ridiculariza alguns personagens (como os clérigos, que Austen tinha pavor), são uma crítica. Eu sou muito Elizabeth Bennet e seu orgulho, convicções, afirmações, críticas, percepções, eu sou um pouco Eleanor Dashwood e sua prudência, cautela, sensatez, sou Catherine Morland e sua fértil imaginação... Jane Austen é um pouco todas essas personagens também, às eu vezes eu sou até a própria Austen!
 Uma das coisas que eu admiro na Austen também, é que, além de seus livros, as críticas que ela fazia sobre a sociedade da época não estavam apenas em seus livros, ou seja, ela tinha a completa consciência de que não vivia em seus livros. Ela nunca se casou, ela detestava o fato de que a mulher tinha que se casar para poder sustentar-se (pelo marido, no caso), ela nunca escondeu seu desprezo por mulheres tagarelas (no pior sentido) ou por homens arrogantes, inclusive clérigos. Ela era seus lirvos e seus livros eram ela! Digam-me UM, mas UM escritor que não tenha algum vestígio, fato, crítica ou ocorrência de sua vida em uma das suas obras, nem que seja o ato mais corriqueiro, todos os escritores sempre colocam em suas obras partes de si, de sua vida, experiências vividas etc, e isso é Jane Austen, uma turbulência de críticas, uma revoltada refugiada em suas próprias obras em forma de protesto subliminar, pois sim, Austen era cautelosa com seus pensamentos "afoitos", mas mesmo assim, ela sempre fazia o que lhe convinha, ela nunca deixou a opinião alheia abatê-la, pois se o fizesse... Ela não teria escrito metade dos livros que escreveu, e olha que são pouquíssimos! Uma mulher escritora (na época era motivo de críticas) de romances ainda por cima, que não era casada, tinha um péssimo relacionamento com a própria mãe (se você já leu as obras dela, verá que poucas mães são realmente sensatas e amáveis em suas obras), e ainda com uma condição financeira não muito boa, ela foi quase, digamos, "apedrejada". Obviamente ela seria, ela manifestava-se em suas obras, ela colocava a visão da mulher sobre as situações da época, e melhor, a visão crítica de uma mulher sensata! O que soava "ameaçador" para o homens, mas claro, eles sempre levaram na piada. Alguns diziam que os livros dela eram utópicos, inexperientes, estúpidos, ingênuos, tolos, a mesma visão que os homens tinham sobre a maioria das mulheres. Uma vez Mark Twain disse (eu o admiro muito e adoro as obras dele mesmo por isso </3): "Cada vez que leio Orgulho e Preconceito, tenho vontade de abrir o túmulo de Austen e socar-lhe o crânio", ué, mas pra quê tanta revolta, o que tem demais?! Já dá para imaginar, o que um homem pensaria de outro homem (senhor Darcy), que pagaria 10 mil libras para um homem que detestava, apenas para ver a mulher que ama e que o ignora feliz e ajudar a sua família! Ok, pode ser meio exagerado, mas pensando bem, caminhar pelas águas e transformar água em vinho é um ato super normal né, sem mais escrúpulos. Sem falar em outras situações muito mais utópicas e hiperbolizadas como no caso de Shakespeare, as críticas que ele recebiam eram, na maioria das vezes, positivas, talvez porque o órgão genital dele fosse diferente do de Austen! Não, não estou sendo extremista, é a mais pura verdade, naquela época o preconceito era tão grande, mas tão grande, que a maioria dos críticos avaliavam mais a própria Austen do que suas obras, ou seja, o fato de ela ser uma mulher que escrevia romance, onde na verdade, os protagonistas mal se beijam e onde as heroínas são sempre o diferente dos esteriótipos das mulheres tolas da época. Creio que se Austen não sentisse tão oprimida pela sociedade, ela escreveria muito mais. Se leres um clássico, romance da época de Jane, escrito por um homem, você verá um homem herculiano ou poderoso como o protagonista e herói, e claro, a mocinha bela e tolinha que era o "objeto conquistado" pelo herói no livro, agora, uma mulher que escreve o oposto de tal?!...(tirando o fato dos homens serem tolos, na verdade, nas obras de Austen tanto homens quanto mulheres eram tolos, e da mesma forma, muitos homens e mulheres eram sensatos, ela tinha uma visão muito abrangente sobre a sociedade, em ambos os lados). Pobre Austen, ainda bem que ela era inteligente o suficiente para não deixar tais mentes fechadas abaterem-na. Pois é, espero que quando perguntem o porquê que eu considero Jane Austen a minha heroína, eu não precise falar mil coisas e apenas mande este texto para que ela entenda de uma vez!
 Poucas pessoas realmente se importavam com as coisas que Jane se importava na época, poucas mulheres eram independentes como ela, prestavam-se para observar ou ter sequer um senso crítico da estupidez e generalização das pessoas e seus preconceitos. Qualquer um que ler Jane Austen, vai perceber as sátiras, suas ironias, as suas críticas e sua visão sensata do mundo tolo em que ela vivia na época, qualquer um que SAIBA ler e interpretar, e que não generalize o fato de que seus romances sejam apenas, bem... romances.  Se todas as mulheres no mundo fossem como ela... Longa vida a Austen!
Minha amada coleção de livros (foi a primeira que comprei em toda a minha vida).
Mãe e eu lendo Jane Austen.

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