terça-feira, 15 de julho de 2014

A Meritocracia

 Pessoas normais nascem com a mesma capacidade cerebral, eu li sobre isso, é verdade, mas a criação/educação/estimulo para o futuro de uma pessoa considerada inferior tanto pela questão econômica ou racial é outra situação bem diferente. 
 Um inglês fez um teste, ele já tinha outros filhos, todos matriculados em escolas normais, desempenhos normais para a idade etc, mas à chegada de sua mais nova filha, ele tomou a decisão de mandá-la para uma escola especial, mais incentivadora, estimulante, com métodos de aprendizagem avançados, porém, claro, o custo era altamente elevado, o que não era problema para a sua situação financeira. O resultado foi esperado, a menina cresceu com uma inteligência, não apenas superior aos seus irmãos, mas a maioria das crianças da sua idade, tornou-se um prodígio, ela desenvolveu um raciocínio lógico muito mais perspicaz, um conhecimento muito mais abrangente etc. Infelizmente, pouquíssimas pessoas têm tal condição financeira para sustentar um aprendizado desse nível. Lembrando que a menina nasceu com a mesma capacidade cerebral que qualquer criança normal, foram suas oportunidades e a situação financeira que a tornou um prodígio. 
 Agora uma realidade totalmente diferente, uma criança negra que nasceu na favela. Por que não estuda? Por que não lê? Não pergunta? Não especula? Não se dedica? Isso é uma questão histórica e cultural SIM, elas não têm culpa de nascerem em tais condições deploráveis, ninguém atualmente tem culpa, não podemos selecionar como ou onde as pessoas vão nascer, então, sendo assim, não podemos condená-las ou julgá-las. Nas favelas, crescem em um ambiente ignorante e sem incentivo para esse tipo de educação, também entra o problema do trabalho infantil e das más influências e falta de apoio. As crianças precisam sim de estimulo, elas não começam a ler ou estudar se não tiverem incentivo, um motivo, um objetivo, esse povo é tão acostumado com a ideia de que eles vão permanecer na miséria até a morte que eles aceitam, se acostumam, afinal, é o que a sociedade em geral impõe, quer que eles acreditem, afastando-os mais ainda por conta do preconceito. As crianças ainda não se tornam totalmente independentes ou autoritárias sozinhas, elas precisam de apoio, que é o que falta nessa realidade cegada pela miséria e pela pobreza. "Os pais não os apoiam?" Na maioria das vezes, não! "Então, a culpa é deles?" Também não... Os pais dessas crianças sofreram do mesmo (até pior quando eles eram as crianças, sendo que o racismo era muito maior, hoje uma grande parte das pessoas têm consciência e bom senso), os pais também não tiveram incentivo ou apoio, o que resulta nesse ciclo contínuo e pessimista da visão do pobre sobre suas poucas oportunidades e a falta de objetivos. Mas chegando às raízes da situação, pois sim, isso tudo é resultado do passado, chegamos a conclusão que o principal motivo para a situação dessas pessoas não tem nada a ver com capacidade cerebral ou falta de educação, mas sim, racismo, preconceito e discriminação de um povo antigo que julgava que o negro era inferior devido à sua cor (infelizmente muitos também ainda têm esse pensamento ignorante). Os negros habitantes das favelas são descendentes de um dos povos mais discriminados e explorados de toda a história, os negros/escravos africanos. Desde muito tempo, sofriam opressão e exploração. A escravidão no Brasil só acabou no final do século XIX, e não, não faz muito tempo se formos analisar toda uma geração de povos, acontece que essa opressão e exploração que os escravos sofriam naquela época, continua até hoje, mesmo depois da abolição da escravatura. Por conta do racismo prevalente na sociedade, o negro continuou a viver na miséria e na opressão, até os dias de hoje uma grande parte sofre dessa discriminação. Para sobreviver na selvageria do racismo, os negros trabalhavam nos cargos mais pesados com salários baixíssimos, em situações terrivelmente deploráveis e tortuosas de sobrevivência, e claro, como eram desprezados e ignorados pela grande parte da população (brancos), e tinham que obedecer a classe que estava no poder, que também pertencia aos brancos, brancos que em sua maioria, eram racistas sim, também devido à questões culturais e históricas. Sendo assim, resultou no afastamento, no isolamento dos negros (futuras favelas), conviveram entre si pois eram ignorados e desprezados pela classe dominante (brancos). Devido a esse isolamento também, causado por vários fatores desumanos, os negros cresceram com uma cultura diferente, um modo de vida diferente, uma certa ignorância sobre certas coisas, uma falta de motivação, de incentivo, até de uma moralidade considerada intrínseca na sociedade atual. Mas eles não pediram pra nascer ou pra viver em tais situações. Eles tentam encontrar formas diferentes de sobreviver, mas da maneira deles, por causa da cultura deles, essa maneira resulta muitas vezes em tráfico, prostituição, violência etc, mas eles não fazem isso porque são negros ou até porque realmente querem, eles fazem isso porque o mundo diz que o destino deles é viver favelados e isolados do mundo, onde permanecem na sua cultura oprimida.
 Não é porque não querem estudar ou trabalhar e não querem um futuro, é pela falta de incentivo, de estimulo, motivação e de objetivos, que são resultados de um passado sombrio na história dos negros. Se tivessem nascido com as mesmas oportunidades, no mesmo ambiente e com a nossa mesma cultura, aí não devíamos levar em conta a sua situação racial, e então, eles seriam incluídos verdadeiramente na REAL meritocracia. Até porque, meritocracia e pseudo-meritocracia são duas coisas bem diferentes, e pelo que vejo, muitos confundem as duas, ou acham que é a mesma coisa.
 A pseudo-meritocracia: É pseudo primeiramente porque não leva em conta os contextos históricos e a falta de oportunidades e incentivo dos impossibilitados, e por causa desses contextos, indiretamente sim, nós , devido ao passado, interferimos na "meritocracia" dos negros. E a meritocracia torna-se mais pseudo ainda porque a maioria dos que "subiram" na vida, não foi por devido mérito, mas sim oportunismo, desonestidade, imoralidade (ex: pessoas que compram vagas, que tiram vantagem para subir na vida, etc), até porque, dificilmente hoje realmente conseguimos alcançar cargos exuberantes com um mérito limpo e honesto, sim, dificilmente, o mundo está sujo, porque não só os "meritocratas" são corruptos e desonestos (uma parte, pois várias pessoas realmente alcançaram seus objetivos com sensatez, independente de questão financeira ou privilégios econômicos como uma instituição de aprendizado privada), mas é uma sociedade inteira que induz à corrupção, para entrar em uma instituição desonesta eu preciso ser desonesto, preciso colocar o dinheiro acima de tudo para alcançá-lo, é assim que funciona.
"Colocar o dinheiro acima de tudo", aí está o problema, mesmo alcançando alguns objetivos continuamos colocando o dinheiro acima de tudo, um ciclo contínuo, nunca vamos conseguir alcançá-lo totalmente, nunca será o suficiente, nunca nos satisfaremos, porque afinal, ele está acima de tudo (tornando-se metaforicamente inalcançável). Então, as pessoas tornam-se "selvagens", sua sede de poder aumenta e elas vivem cegamente nesse mesmo rumo, em busca do inalcançável.
 Hoje é fantasia afirmar que os bonzinhos se dão bem, e não é pessimismo, infelizmente é uma grande realidade, os desonestos sempre conseguem se safar de seus crimes, ou com suborno ou claro, a vantagem econômica, que é tão, mas tão superior a tudo que pode fazer qualquer coisa com quem quiser, como quiser e quando quiser. A justiça tornou-se corrupta, todos adotaram essa base, as pessoas vêem-se sem opção, cegas por tal realidade suja, indo todos para o mesmo caminho do "lucro, dinheiro e poder", porque essa foi explícita a base de sobrevivência do ser humano. 
 O rico é rico demais para se dar mal e o pobre é pobre demais para se dar bem.
 As cotas, tantos raciais ou econômicas, devem deixar de existir quando o racismo e preconceito serem varridos da face da Terra. Mesmo os negros que tiveram as mesmas oportunidades que nós, ainda sofrem repressão e preconceito nas escolas e faculdades (públicas principalmente), devido a uma sociedade ignorante e que só se importa com o próprio umbigo.  
 Não se pode negligenciar os conceitos históricos, estamos no presente, sim, mas o presente é o resultado do que já foi ontem, e não podemos mudar isso agora, mas podemos mudar o amanhã, pois a única esperança que temos é que o amanhã será o resultado de hoje.


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