segunda-feira, 14 de julho de 2014

My heart lives deep in the forest

Quando vejo a luz do sol bater sobre a relva,
Fecho-me em um profundo silêncio,
Engolido pelas entranhas da selva.

 Eu gosto de andar. Eu gosto de pensar. Gosto de observar, de admirar, se sentir, de deitar, de ouvir a orquestra da natureza. As pessoas costumam encontrar prazeres em muitas coisas, algumas inusitadas, outras simples demais até para serem compreendidas, devo admitir que eu encontro prazer em muitas coisas, e eu aprecio muito mais o prazer das pequenas e das simples coisas, há algo de grandioso nelas, há uma sensação regozijante que as tornam grandes. Alguns não compreendem, outros tentam compreender, e aqueles que sabem sentir, não fazem nenhuma das coisas, apenas apreciam e aceitam o grande prazer que é andar descalço sobre a grama.
 Não gosto de seguir trilhas, se é uma trilha, por lá alguém já andou e não há nada de grandioso a ser descoberto, não há nada novo, nada para se conquistar, para se questionar. Mas eu sigo trilhas. E normalmente, sempre as mesmas. Detesto isso, não sei exatamente o porquê, mas detesto-me por seguir sempre as mesmas trilhas. Talvez eu saiba por quê... Eu sei que eu tenho que voltar, de alguma forma ou de outra, então, é mais "seguro" já ter uma trilha para saber o caminho de volta, e aí encontro o problema, eu não quero voltar na verdade. Eu quero me perder, sim, quero entrar na floresta mais fechada, quero cair, esfolar-me, arranhar-me, eu quero, quero vagar, divagar, ir até onde os meus pés quiserem ir, mas se fizer isso, não sei se conseguirei voltar.
 Sentei-me bem alto, em um pico, por mais longe que eu tenha andado, de alguma forma, ainda conseguia ver uma parte da cidade, virava-me, de um lado, o sol sobre as árvores, o júbilo dos pássaros, o indecifrável, o misterioso, o imprevisível, do outro lado, eu via e ouvia a cidade, os caminhões, as metalurgicas, as pessoas, o corriqueiro, o previsível, o decifrável, o normal. Eu não queria voltar, uma vontade grande me possuiu de seguir adiante, mais longe ainda, seguir apenas o sol e o barulho dos pássaros, adentrar-me na mata densa, ir onde nunca fui, o mais longe que eu pudesse ir, sem rumo, sem trilhas, sem volta, mas eu não podia, eu não posso. 
 Apesar do meu grande senso aventureiro e espírito de liberdade, considero-me uma pessoa sensata, mesmo com minha mãe sempre falando sobre minhas vontades esquisitas, minhas vaidades estrambólicas, meus gostos desgostados, eu tenho bom senso, um senso que admite que eu tenho que voltar, que tenho prioridades diferentes, tenho compromissos, é isso que me puxa de volta, de alguma forma, eu tenho que aceitar. Não posso alcançar o horizonte enquanto tem uma corda que me puxa, e eu não quero cortá-la, não posso, não agora. 
 Não é loucura amar o misterioso, a aventura, o novo, ah, afinal, o que é loucura? Loucura é relativa, para mim, loucura é encontrar prazer na luxúria, é viver num cíclo contínuo, viver como máquinas, ser máquinas, ter os mesmos pensamentos, não questionar-se, não procurar, pesquisar, explorar, viver como uma ovelha do rebanho, com cordas que a puxam de todos os lados, viver no ópio.
 Andar me faz pensar, quando não ando, eu sento no meio do nada, no verde, no silêncio que só é quebrado quando os pássaros põem-se a cantar... Parece que eles sabem que "música" cantar para mim, sempre, é uma orquestra harmoniosa, eles traduzem a sensação de simplicidade e ventura, isso é prazer, isso é algo que o homem realmente não compra (não precisa comprar nada para sentir esse prazer), mas que ele destrói. Sento-me, penso, sinto, ouço, então, o sol se põe e lembro-me de que tenho que voltar, e eu volto, voltarei sempre que precisar, tenho pessoas que eu amo muito e algumas outras a decifrar, outras a conhecer, mas isso não me impede de algum dia seguir adiante, seguir o mais longe que puder, ver o que nunca vi e sentir o que nunca senti, viver o que nunca vivi. Escurece, os últimos raios de sol escondem-se no horizonte... E eu volto. 

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