terça-feira, 18 de novembro de 2014

O Mundo visto por uma única Janela


 Eu posso ver um mundo inteiro pela janela do meu quarto...
 Ao mesmo tempo que eu não vejo nada, nada a não ser o céu azul, limpo, lúcido, sereno... Não há nada para se ver lá, nem para se ouvir, não ouço nada além do meu pensamento, ele é o único "som" que tal mundo pode emitir, pensamentos que ressoam harmonicamente na orquestra do caos.
Entre quatro ângulos retos e de mesmo comprimento, observo a imensidão profunda da cor que os raios solares produzem na nossa atmosfera: o azul, imenso e infinito azul. Sigo meus olhos a cada horizonte e ele continua lá, esse azul, essa infinitude ... sem alterações de cor, de intensidade, de forma... Que forma? Um plano? Uma superfície concava? Uma bolha? Eu não sei, nada sei sobre ele, não posso saber o que ele realmente é agora, só consigo ver a sua imensidão... Meus olhos nada vêem nessa imensidão, mas eles traduzem esse nada em uma linguagem que nas entranhas do pensamento, talvez, algum dia, eu possa compreender... 
 Eu não consigo ver, mas eu posso ver... Eu posso ver... Um passado esquecido, um futuro perdido... Eu posso ver a imensidão do espaço, as estrelas, o centro da Via Láctea, posso ver o mais longe que a imensidão me permitir... Também posso ver de perto, eu posso ver o fogo sendo obtido através da fricção de um graveto, posso ver as árvores de milhares de anos atrás crescendo e espalhando suas raízes pelo solo, posso ver o homem... o homem voando, o homem pisando na lua, eu posso ver essa... essa constante e magnífica evolução, que ocorreu há muitos anos atrás e ainda ocorre, do outro lado da minha janela.
 Nessa janela, eu também vejo o caos. Posso sentir a vibração e ouvir a colisão entre meteoros, posso ver a atmosfera turbulenta de Júpiter, posso ver a intensidade da luz e a velocidade de rotação de um pulsar há milhares de anos-luz daqui, da minha janela... O caos do universo e o caos da humanidade... Eu posso ver corpos caindo ao meu lado, sangrando, posso ouvir o trombar de canhões, ver navios afundando, tanques de guerra... Eu posso ver o desespero, ele acompanha constantemente essa evolução... 

 Como um quadro em branco, as imagens vão espontaneamente eclodindo nitidamente e constantemente, como se fossem pintados, pintados pela conturbação de pensamentos que se deixam viajar na imensidão de um universo inalcançável. Algum dia, eu, eu poderia tocar tais pinturas? Ou alterá-las? Eu poderia... vivê-las? Ver elas bem de perto, não da janela do meu quarto?...
 Eu poderia ter as mesmas visões desse mundo através de uma fresta da veneziana, ou das grades da janela de uma cela escura... até, em um quarto sem qualquer janela... Apenas com a mente aberta, mas sempre precisamos abrir novas janelas para iluminar o nosso ambiente e ampliar nossa visão... É nisso que eu acredito.
 Continuo observando o mundo através da minha janela, tentando decifrar os enigmas do universo... Tentando descobrir o formato do céu, do universo... da vida... Mas está tudo tão... inalcançável. Não posso mais suportar a agonia de assistir o mundo girar apenas da minha janela, eu quero... quero fazer parte, desse caos e dessa harmonia, quero descobrir coisas novas nesse mundo, explorar o inexplorado, aplaudir os loucos, superestimar os subestimados, eu quero viajar, seja no mais fundo do mar, na profundidade das fossas Marianas ou ir para fora do Sistema Solar, para fora da Via Láctea, para Andrômeda ou Nuvem de Magalhães, para fora do alcançável... E por quê não?...
 E continuo observando da minha janela, pensando, refletindo, sonhando... Por que a minha janela? A janela das outras pessoas são diferentes? O azul para elas é visto de uma forma diferente? Um tom diferente? Já vi várias outras janelas, mas a minha sempre me apetece mais, é como se... ela fosse criada para mim.me foram abertas, mas por outras pessoas, portas que me induziam a um caminho oposto do que eu desejava seguir, portas com diferentes realidades e visões de mundo. Tenho medo de muitas dessas portas, não porque contêm visões diferentes da minha janela apenas, não temo o desconhecido, pelo contrário, temo o conhecido, o que essas portas representam... A ganância, a ignorância, o medo, a violência, a mentira, até o senso comum...
 Ainda não encontrei a minha porta... Estou esperando que o vento a abra, mas não posso controlar sua direção ou sua intensidade e eu não quero esperar o vento... Eu quero pintar nesse mundo também... 

 E eu continuo observando o mundo da minha janela... Todos os dias, todas as manhãs. Saio pelas portas da minha casa, em caminhos que percorro todos os dias... Pois não há portas que me levem ao mundo que minha janela me oferece... 
 Acho que antes de abrirmos portas, devemos observar pela janela, observar o mundo, senti-lo.
 Mas... Por que eu preciso de uma porta, se eu tenho uma janela? Não quero ficar só observando meus sonhos e esperando alcançar meus objetivos... Eu posso pular essa janela se não me existe uma porta. Eu não preciso de portas, não preciso de caminhos mapeados ou de "predestinações", eu só preciso olhar pro meu céu e pintar o meu próprio mundo. Acho que está na hora de eu fazer parte disso, abrir a minha própria porta e viver tudo o que eu desejei viver... observando da minha janela.




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