terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Grãos de Uva

 Havia um pequeno garoto sentado debaixo daquela árvore, eu ainda me lembro bem daquele dia. Era uma manhã de verão, daqueles dias mais belos do ano, serenos e constantes, uma plenitude vívida e amena pairava sobre aqueles prados verdes onde um grupo de crianças que dançava, empinava pipas, cantarolava e pulava de um lado para o outro na brisa matutina. Todos estavam se divertindo sob o sol, menos o pequeno menino debruçado sobre o tronco do salgueiro-chorão, mal dava para notá-lo naquele seu esconderijo, mas eu notei. 
 O menino estava em um silêncio nada soturno, era um silêncio curioso, seus olhos - que brilhavam como duas bolitas de cristal - estavam à procura de algo, mas o que era eu não pude dizer. Percebi então que em sua mão havia um cacho de uva branca, grãos vistosos e graúdos, apesar de tal uva parecer extremamente apetitosa, o menino não comeu um grão sequer, porém, dava-se para notar que ele tinha um interesse ávido pela fruta, ele girava-a e analisava-a com grande atenção. Depois de um tempo observando-o no seu exercício repetitivo, decidi me aproximar. 
- Você gosta de uvas, garotinho? - Perguntei com um sorriso no rosto.
 Ele subitamente virou-se, dando a esclarecer que não tinha visto eu me aproximar. Ficou me encarando por alguns segundos com aqueles olhos esbugalhados, mas não obtive respostas.
- As brancas são as minhas preferidas. - Arrisquei, na expectativa de que ele se sentisse mais confortável.
- Eu gosto de todas. - Respondeu o menino com veemência. - Das brancas, das rosas, das pretas, gostaria até das de arco-íris se elas existissem.
 De um minuto para o outro, ele não era mais um menino fechado, mas uma criança descontraída e vigorosa. Sorri para ele, aquele olhar me presenteava com a leveza, e eu simplesmente sorria. Antes que eu pudesse responder, ele olhou para mim com aqueles olhos novamente:
- Não entendo por quê as pessoas têm que gostar de uma só coisa. Eu gosto de todos os tipos de animais, de cores, de frutas e de árvores, apesar de que algumas árvores são mais difíceis de se escalar do que outras, mas não é porque elas querem que nós caiamos, elas apenas querem que nos esforcemos para subi-las. Elas sabem que somos capazes.
 E novamente, ele voltou a analisar seu cacho de uvas. Eu não pude responder no momento, depois de um tempo, voltei ao assunto:
- Então, o que você está procurando aí?
- Nada. Não gosto de procurar. Gosto de observar, quando observamos podemos encontrar o que procuramos sem nem mesmo procurar... é como uma surpresa, pois a maioria das vezes nem sabemos o que procuramos. E muitas vezes, o que procuramos não é o que precisamos.
- Muito bem então. - Respondi, sorrindo. - E o que você está observando então?
- Um cacho de uvas. - Respondeu o menino, sem malícias. - Só não sei o que vou encontrar.
- Posso me juntar a você? - Perguntei, complacente. 
 O menino não respondeu, apenas afastou-se um pouco de mim, dando lugar para me sentar debaixo daquele grande e velho salgueiro-chorão, então, juntos observamos o cacho de uvas em silêncio.
- Curioso. - Falei, quebrando o silêncio.
- O que é, o quê? O que o senhor achou?! 
- Veja, este grão é muito menor que os outros... Por que será?
 Ele não respondeu, ficou devaneando por um bom tempo, com os olhos fixos no pequeno grão.
- O que o senhor acha que é? - Ele então perguntou.
- Talvez ele seja mais novo que os outros, por isso é menor. - Arrisquei tal presciência esperando obter uma resposta diferente do garoto. E ele satisfez o meu desejo.
- Eu acho que não. Acho que ele está com medo, está escondido no meio dos outros grãos... Como se lhe faltasse espaço... O senhor acha que é isso? Que lhe falta espaço? 
- Talvez... E você, lhe falta espaço? - O menino me olhou curioso diante de tal pergunta, como se não entendesse, mas seus olhos denunciaram a sua compreensão.
- Às vezes me sinto sufocado... Impedido de crescer. Preso no meu pequeno espaço e esmagado pelo espaço dos outros. - Disse ele, olhando para a relva em seus pés descalços.
 E o silêncio retornou junto com nossos devaneios até ser quebrado pela doce voz pueril:
- Alguns grãos só crescem mais porque roubam o espaço dos outros, eles espremem os menores e assim tornam-se os mais desejados do cacho. Se todos os grãos respeitassem seus espaços, teríamos um cacho de uvas perfeito e simétrico, não apenas com alguns grãos melhores, mas todos os grãos igualmente bons.
 Não tive reação diante de tal resposta, apenas percebi que o que muitas pessoas não compreendem em cinquenta anos, um garotinho de oito já havia compreendido.
- E se eu lhe dissesse que há espaço o suficiente para você crescer o quanto quiser, sem atrapalhar os outros grãos? - Perguntei, animado.
- O que quer dizer? Eu poderia ter um grande espaço sem atrapalhar os outros?
- Sim, talvez o seu cacho seja maior.
- Bem... - Começou o menino, vagarosamente. - Eu diria que não sinto-me pequeno porque não há espaço, mas sim porque ainda não aprendi como crescer.
- E você aprendeu como crescer?
- Eu não sei... Talvez seja uma questão de tempo. Talvez eu tenha medo...
- Se você tiver medo de ocupar seu espaço, os outros ocuparão. - Respondi, convicto.
 O menino não disse mais nada, apenas sorriu, foi a primeira vez que vi o seu sorriso.
- Qual é seu nome, senhor? - Perguntou-me.
- Meu nome é Augusto Sanches.
- Engraçado, tenho o mesmo nome que o senhor!
- Eu sei meu pequeno grão, eu sei...

 Ainda me lembro daquela manhã em que eu estava sentado debaixo de um salgueiro-chorão analisando um cacho de uvas com meus pés descalços... A manhã em que de um pequeno grão eu me tornei um cacho.






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