domingo, 11 de janeiro de 2015

O Peso da "Liberdade de Expressão" no Riso dos Outros

Documentário "O Riso dos Outros"

Com toda essa polêmica do Charlie Hebdo, agora é uma boa hora para discutir sobre um assunto muito delicado e complexo... A liberdade de expressão na comédia.

Primeiramente, entre "Je Suis Charlie" e "Je ne suis pas Charlie", ainda não me posicionei, antes queria pesquisar mais a fundo sobre as charges da revista, ver o conceito político e social que regem as piadas da mesma, então, não posso tomar posições precipitadas. Porém, obviamente, claramente sou extremamente contra atos de terrorismo e violência, mas a questão que vou trazer agora não é sobre a violência em si, é sobre o humor, e a tênue analogia entre eles (humor e violência).

Vi esse documentário muito interessante na minha timeline que fala sobre esse assunto, eu achei o vídeo muito bom, destacando os dois lados do humor, o que chamam de "politicamente correto" e "politicamente incorreto", pra mim mais como rótulos conceituais. Esse documentário me ajudou muito a reforçar a minha visão da liberdade de expressão,e a formar argumentos. Existem muitas desavenças, divergências e contradições em opiniões sobre assuntos tão comedidos quanto esse, e como eu gosto de expor minha opinião e meu ponto de vista (que eu tento me basear não em ideologias ou sensos comuns), resolvi falar um pouco sobre (ou muito, não consigo falar pouco rs).

Claro, ninguém precisa concordar com meus pensamentos, mas só quero que saibam que tudo isso que eu vou escrever é real, me obstinei em observações críticas, artigos, vídeos e até em cenas que vi no dia a dia. Qualquer um que tenha um senso crítico pode ver as consequências negativas do humor preconceituoso.

Primeiramente, há uma certa "lei" que dizem governar o instinto humano: "pra tudo se deve haver limites", apesar de eu não me dar muito bem com limites, eu devo concordar com essa frase. Não gosto de censuras, principalmente quando queremos expor nossos pensamentos ideológicos, acontece que não posso ser contra a "censura" (livres interpretações) quando ela se volta, não à liberdade de expressão, mas ao discurso de ódio. SIM! Não é um pensamento pessoal considerar o humor preconceituoso como um discurso de ódio, essa concepção que eu tenho sobre a piada preconceituosa não é porque eu não tenho um bom senso de humor ou sou "chata", é baseado no que as próprias piadas querem dizer, sim, piadas expressam pensamentos e opiniões. No documentário fala sobre isso, que sim, não são apenas piadas, todas as piadas têm uma ideologia, elas são fundamentadas em realidades, em fatos, e elas têm consequências.

A piada pode ser extremamente preconceituosa, que faz apologia ao estupro, que incentiva o racismo, a homofobia ou o machismo, mas se rir, tá liberado? Tá tudo OK? É só uma piada?
Como estava no documentário: "minha liberdade se encerra no direito do outro".
Gostamos de ser respeitados, ninguém gosta de ser rebaixado, queremos nossos direitos e nossa inclusão social, agora, desde quando raça, cor, crença ou posição política defere os seus direitos do de outro indivíduo? Cada um tem a liberdade de conquistar e aproveitar seus direitos, mas não de interferir no dos outros, e isso inclui o direito de ser respeitado.

Devemos quebrar os esteriótipos e pré-conceitos que nós mesmos criamos, pois eles são os pilares para a maioria dos discursos de ódio da atualidade.

Uma piada traz um conceito sobre certa coisa, e o humor preconceituoso sempre traz um preconceito estereotipado. Parece que quando ouvimos piadas negativas sobre negros ou homossexuais elas não soam tão negativas quanto discursos de ódio explícitos como "os gays devem morrer" ou "negros não prestam", acontece que, é isso: o discurso de ódio é explícito, a piada, apesar de não fazer exaltações do tipo, de certa forma, cutuca o oprimido e ressalta a sua "condenação social". Mas e por que as piadas não soam tão negativas? É simples, elas são naturalizadas, "são só piadas", se torna algo normal, corriqueiro e claro, que nos faz rir, por que condenar algo que nos faz rir? Rir do oprimido te torna um opressor? Bem, isso pode ser relativo, porém, aceitar a opressão (porque humor preconceituoso ressalta a opressão) é uma certa forma de aceitá-la, naturalizando-a.

Quando algo é naturalizado, prevendo o poder do senso comum da sociedade, esse "algo" pode ser propagado no pensamento de muitas pessoas, ele é aceito, incluso nos pensamentos como algo normal, chamar negro de macaco é natural, chamar mulher de vadia também, nas piadas esses rótulos são vistos frequentemente, com tanta frequência que não sei o porquê ainda acham graça... talvez porque ela não seja sobre você, e se for, você vai rir também por que tem senso de humor? Ou porque é natural rir da opressão e da discriminação sobre certas minorias?

É, a culpa não é apenas do "humorista", ele traz à tona um pré-conceito que a maioria das pessoas já possuem. Para antes eliminarmos as piadas preconceituosas, devemos eliminar o preconceito, e isso não depende apenas dos "humoristas", depende do bom senso de cada pessoa. O politicamente correto não é baseado em uma doutrina política ou qualquer coisa do gênero, é baseado no bom senso, uma crítica humana e social à sociedade e suas imposições despóticas e segregativas.

Contestar o humor preconceituoso não faz de você alguém sem senso de humor, mas sim, alguém com bom senso, crítico e social.

Sátiras aos opressores, mostrar que você NÃO aceita a opressão, criticar os preconceitos de forma humorística, um humor inteligente, humor saudável, humor genial. A genialidade cômica está mais em fazer piada com assuntos singulares, pegar algo obsoleto e transformar em humor, do que rir da desgraça alheia e fazer apelações ridículas.



Você não precisa escolher sobre o que deve rir, mas sim sobre o que deve respeitar e apoiar.
"Nada descreve melhor o caráter dos homens do que aquilo que eles acham ridículo." - Goethe

Sempre sinto que não falei o suficiente e que ainda conturbações na minha mente para serem expostas (tenho uma necessidade terrível disso), porém, já falei demais, mesmo achando que não era o suficiente hahaha Só escrevi esse texto na tentativa de conscientizar as pessoas sobre a "liberdade de expressão" e seu verdadeiro significado, que é distorcido por muitos conceitos errôneos. Gostaria que essa liberdade de expressão fosse baseada numa ética universal, acontece que hoje em dia a ética e a moral são coisas que variam de pessoa para pessoa, por isso torna o assunto bem complicado de ser analisado e argumentado.

Obrigada a quem conseguiu chegar até aqui e trilhou esse árduo caminho. hahaha

Recomendo que assistam do documentário para entender melhor como funciona essa atmosfera humorística, o vídeo contém opiniões dos dois lados o que ajuda a reforçar nossos conceitos.

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