sábado, 24 de janeiro de 2015

Pai, me desculpe por crescer...

 Eu lembro de você me dizendo "suba mais alto" enquanto eu lá de cima de uma árvore olhava para baixo e via você me cuidando, e eu ia mais alto e mais alto, até o topo, lá de cima a vista era incrível, e quando eu descia, era recebida calorosamente com um abraço e um "macaquinha".
 Eu lembro, quando eu tinha 6 anos, quando você me "ensinou" a nadar... "Mas pai, eu vou me afogar", "É só pular", você dizia... Que absurdo! Como se fosse tão fácil... Mas eu pulei, e por incrível que pareça, eu saí nadando, como um peixe que já nasce na imensidão do oceano, nadando instintivamente... Você sabia que isso ia acontecer, não sabia? E depois, também fui carinhosamente chamada de "peixinho", e eu gostava, eu literalmente vivia debaixo d'água e adorava quando você elogiava meus pulos.
 Eu lembro que você trabalhava e ficava fora por um bom tempo... E eu te esperava, ansiosamente, para receber o meu presente... Lembra do chocolate Surpresa da Nestlé? Das figurinhas de animais que tinham nele? Eu lembro que esperava por eles cada vez que você voltava, e você ia me explicando e me ensinando sobre cada animal que achávamos no chocolate, "como você conhece todos?"
 E as pedras que achamos? As casas na árvore que não deram certo? As borboletas e insetos que você me trazia, e ainda me traz... Inúmeras vezes você escondia sua mão e dizia: "Adivinha o que eu tenho aqui?", e você só me deixava ver se eu adivinhasse...
"- Uma pedra?
- Não.
- Uma borboleta?
- Também não.
- Um passarinho?
- De que tipo?
- Não sei.
- Gosta de flores.
- Beija-flor?!"
 E então... Era uma alegria... Ah, essas coisas simples, eu sorrio só de lembrar, e as lágrimas que escorrem no meu rosto agora são de felicidade... E saudades.
 Ainda hoje assistimos Animal Planet, Discovery, National ou qualquer outro canal que contenha animais e natureza, gosto de saber que ambos gostamos disso... "Pai, quando eu crescer vamos morar em uma casinha na África, junto com todos esses animais", se lembra dessa promessa? Não faz tanto tempo que lhe prometi, e sabe de uma coisa, eu ainda quero cumpri-la, não vamos mais ver a "Vida dos Leões" apenas pela TV... "Eu acho que ele vai sobreviver!" "Eu acho que não."
 Nunca viajamos para longe, mas já exploramos muitos lugares, não é? Você me ensinando a identificar pássaros pelo som de seus cantos e a identificar as árvores. Nossas longas caminhadas, você me contando sobre sua infância, suas aventuras com seus irmãos, suas travessuras, os lugares que você viveu e brincava... E eu sempre te ouvindo, atentamente, como uma criança ouve a seu herói. E então, sentávamos debaixo de um pé de bergamotas e ficávamos lá, descansando, em silêncio.
 Quando caminhamos juntos pelas florestas, sinto que somos apenas nós dois no mundo, e mais ninguém, como se o mundo fosse apenas nosso e pudéssemos nos aventurar por qualquer lugar, até que o tempo conseguisse nos impedir. 
 Nunca poderei esquecer de tudo que já fizemos juntos, de tudo o que você me ensinou... As noites de bisca, rindo e caçoando um do outro. Os tiros de espingarda, ahh você pode ser melhor do que eu na bisca, mas na espingarda eu ganho de você de longe! hahaha... E os filmes de guerra? Adorava te explicar a história, dos reinados, dos diferentes séculos, ficava tão feliz por te ensinar algo, quando você já tinha me ensinado tanto...
 Pai, podemos voltar ao tempo? Eu odeio crescer.
 Agora minhas lágrimas são de tristeza...
 Nunca fomos íntimos de palavras, eu nunca consegui me expressar pra você, não somos bons com sentimentos, mas eu sinto que somos íntimos de alguma forma, você é meu parceiro de aventuras, somos íntimos de alma, quando estamos juntos, nosso silêncio não é proposital, é nele que nos encontramos... Não falamos muito, mas sentimos... o vento, as nuvens, as árvores, o sol, a chuva, os pássaros... nós somos eles. 
 Gostamos de filmes de faroeste, mas você sempre torce para os cowboys, e eu para os índios... Somos parecidos em tantas coisas e tão diferentes em outras. Temos várias opiniões diferentes e várias vezes eu discuto com você, mas você não discute comigo, eu sei que detesta ter intrigas comigo, apesar de todas as minhas teimosias, nunca quis decepcionar você.
 Você continua a pegar no meu nariz, a me mostrar a língua, a me fazer caretas, e eu continuo rindo, como uma criança. Você adorava meu cabelo, e quando cortei, você foi o único que gostou dele mesmo curtinho. Você sempre gostou das minhas loucuras infantis, das pedras, plantas ou insetos que eu trazia pro meu quarto, você sempre me aceitou e me incentivou a ser quem eu era, você via a minha felicidade nas pequenas e simples coisas da vida.
 Mas eu estou com medo pai... Estou com medo de algum dia não podermos caminhar mais, procurar insetos, jogar cartas, dar tiros, assistir filmes e documentários... Sinto que cresço, e de alguma forma, sinto que nossas aventuras ficarão no passado, para lá permanecerem. 
 Eu vejo que você anda reclamando de mim, você também não quer que eu cresça, e eu sinto que estou crescendo, estou mudando e as coisas estão se modificando também... Mas pai, eu serei pra sempre sua "macaquinha", e subirei o mais alto que eu puder. Eu serei sempre a sua "corujona" que adora ficar acordada à noite, lembra de quando te ajudei a identificar as constelações? E serei sempre sua "filha rebelde", que adora aventuras, que quer viajar o mundo, e que aprendeu tanto contigo...
 Eu escrevo isso a você, para eu nunca esquecer de todas as nossas aventuras, que na verdade nem couberam aqui, pois sei que haverão muitas mais.
 Subir o mais alto, mergulhar o mais fundo, acertar o tiro e não ter medo. Vou sempre levar isso comigo, da África até qualquer lugar do mundo que prometemos um dia visitar. Vou crescer, não posso impedir de criar asas e sair voando pelo mundo, mas sempre serei seu passarinho selvagem.

De sua filha rebelde e teimosa que te ama tanto.


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