sexta-feira, 17 de julho de 2015

Cidade de Fios


Em meio a prédios cinzas e asfaltos escuros, lá estava eu.
Se era meia-noite ou meio-dia, pouco sabia, o sol eu não via, nem a lua por sinal.

Olhava para cima e via vidas, vidas cinzas, vidas repetitivas, corriqueiras, via prédios: caixas, e dentro dessas caixas eu via pessoas... Essa era a vida que eu via. Vida de prazos, vida de vias predestinadas, vidas sem acasos.

Então, eu olhava para frente, e via caixas andantes, carros, com pessoas apressadas dentro deles, reclamando por outras pessoas também estarem andando nas caixas andantes. Não sei aonde queriam chegar, mais sei que retornariam, com o mesmo semblante infeliz, para lá voltar no outro dia, repetidamente.

 Eu estava perdida. Quem passava por mim mal olhava para mim, passava reto, como um trem em seus trilhos, esquecendo do mundo a sua volta, esquecendo de outros caminhos que poderiam ser percorridos, eram como máquinas.

 E como aquelas pessoas se comunicavam? Por fios... Cobriram o céu com fios para que pudessem se unir as vozes de uma caixa à outra! Uniram as vozes... mas separaram os abraços. E os sorrisos foram registrados com uma foto em qualquer rede social, porém, em seu rosto no dia a dia, pouco era visto tal sorriso, pois seu rosto estava muito ocupado, abaixado, olhando para seu aparelho eletrônico, curtindo fotos de outros sorrisos semelhantes...

Olhava para todos os lados... Me senti uma ilha, e ao meu redor havia um imenso mar sombrio, no qual eu não queria navegar. Eu estava presa, na minha própria liberdade, na liberdade imposta por uma sociedade, eu estava presa ao prazer do consumo e à segurança do dinheiro. Senti-me mais um tijolo do muro, aderida pelo concreto, sem poder sair dele.

 Aquela era a liberdade da segurança, da garantia, quem dela saía, estava perdido. era o que diziam... Mas e eu?! Que vivo nessa segurança e ainda me sinto perdida? A garantia de nada me vale, se o produto não me agrega.

 Comprei a felicidade aqui, não custou muito caro, mas a vesti, só que ela tinha data de expiração, era efêmera: Era o conforto e a satisfação. Assim me incluí no grupo dos felizes cada vez que consumia, um grupo onde a felicidade tem um conceito diferente do que eu achava que tinha, mas eles garantem: com conforto e satisfação a felicidade virá!

 Apenas me senti mais vazia... distorceram o real significado de felicidade, eu acabei não querendo mais ser feliz, ou ser o que eles consideravam feliz, o "estar de bem com a vida", decidi que, minha felicidade não precisa ser baseada no conceito de felicidade dos outros, se minha felicidade está em sentar na sacada pela manhã para observar a aurora e o canto dos poucos pássaros que ainda restam, é para lá que eu vou, com garantia financeira ou não.

 E assim eu sobrevivo, constantemente, como uma ilha, como o quadrado em meio aos redondos, como a rosa preta em meio às rosas vermelhas. Mas eu quero mais que sobreviver, eu quero viver, antes que eu morra acreditando que minha felicidade estava validada pela sociedade e garantida de modo material. Antes que eu morra internamente, perca a essência e a faísca da vida, onde apenas meu corpo vive, para preencher qualquer buraco vazio nesse muro de garantias.

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