terça-feira, 28 de junho de 2016

Minha relação, emocional e racional, com o vegetarianismo


O mercado vegano da Alemanha cresceu em 650% nesses últimos anos, a cada ano temos mais adeptos ao vegetarianismo/veganismo em todas as partes do mundo, e uma das soluções que cientistas encontraram para a erradicação (ou pelo menos diminuição) da fome no mundo é a decremento do consumo de carne, ou seja, o veganismo não é apenas uma questão individual, ele pode, em grande escala, mudar o mundo. Então, é de certa forma ignorância considerar o vegetarianismo uma decisão apenas emocional e completamente ingênua do ser humano, "comer salada não vai mudar o mundo", não, mas o boicote à carne tem esse potencial.

Dizem que a escolha de ser vegetariano vem apenas do lado emocional do ser humano, que a negligência de não comer carne nos dias atuais não condiz com a evolução do homem, discordo. Pois bem, vamos em partes.


Emocional:

Emocional, sim, também incluímos, não podemos desconsiderar (tirando a questão das pessoas que não comem carne simplesmente porque não gostam ou não consideram saudável, não pelos animais).

Desde criança tive uma relação muito estreita com animais, como um amor de criança pelo seu bichinho de estimação. Eu vivia na casa dos meus tios e da minha avó no interior, ficava semanas lá e não tinha vontade nenhuma de voltar pra casa, sempre fui apegada à natureza. Criei um afeto enorme por animais, todos os tipos, eu sempre acreditei na inocência e nos sentimentos dos animais (o que não é algo difícil de se perceber), e isso fez que com 7/8 anos eu já não quisesse mais de comer carne (como acontece com algumas crianças), pra mim sempre foi tão cruel comer um vaca quanto comer um cachorro. Não aceitava o fato de comê-los, porque eu preferia vê-los vivos, contudo, não deixei de comer carne até meus 11 anos, quando tinha autoridade e maturidade o suficiente pra tomar essa decisão na minha vida.

  Tive que enfrentar muitos obstáculos, principalmente porque nasci em uma cidade pequena tipicamente gaúcha devoradora de carne, sim, na minha casa ainda comem carne quase todos os dias. Aí temos aquela pressão social de gente ditando regra, falando que é necessário comer, que preciso pensar pelo lado racional, não apenas emocional etc, não respeitando minha decisão. Fiquei dos 11 aos 12 anos sem comer carne, mas eu voltei, não por pressão da sociedade, nunca me importei com isso, voltei pela minha saúde, sempre tive um pequeno grau de anemia e as nutricionistas em que eu consultava (aqui na minha cidade mesmo) diziam que eu precisava voltar a comer, e voltei, contra minha vontade.

 Não aguentei muito tempo, com 13 anos parei novamente e estou até hoje sem botar um pedaço de carne na boca, 5 anos consecutivos, 6 no total. Estou viva, estou bem, estou feliz, obrigada. Contudo, não alcancei minha meta, o veganismo.

 Mesmo que a maioria dos ovos e leite que eu consuma venham de pequenos proprietários onde a criação de vacas de leite e galinhas não é cruel como a confinação industrial, muitas vezes como derivados industrializados onde, provavelmente, esses animais vivam encarcerados e vivem como objetos de produção para o sistema monetário, pois consumindo produtos de origem animal eu contribuo para esse sistema e eu não me sinto confortável com isso,

Racional:

 O leão come a gazela, a raposa come o coelho, o ser humano come... de tudo. Sou uma pessoa "cientificamente correta", não desconsidero a naturalidade biológica dos fatos e tenho total compreensão de que a carne foi crucial para a nossa evolução. Ou seja, a minha decisão de me tornar vegetariana foi consciente e racional, afinal, a decisão de comer algo ou não é derivada da racionalidade do ser humano em fazer escolhas, o leão não consegue escolher o que comer além da carne, pois está no biológico dele. Já nós, humanos, desafiamos as leis da natureza tantas vezes, criamos máquinas capazes de realizar nossas funções, de pensar por nós, de identificar nosso DNA, fomos criados para criar, revolucionar, vivemos em constantes mudanças.

 Todas as proteínas ou nutrientes encontrados na carne podem ser encontrados em outros alimentos, sim, hoje temos conhecimento de tudo o que precisamos para que nosso organismo continue funcionando e sabemos quais alimentos possuem o quê, só não sei se minhas nutricionistas possuíam esse conhecimento... Antes, realmente, não tínhamos noção disso sem nossas tecnologias, hoje temos consciência de que a carne pode sim ser substituída por outros alimentos na nossa dieta, ou seja, ela não é mais 100% crucial, como na dieta de um leão. Mas mesmo assim, antes dessa tecnologia, muitos intelectuais e pensadores optaram por não comer carne por questões éticas como Tolstói, Thoreau, Da Vinci e dizem que até Einstein. Eu não preciso dela enquanto tiver outros alimentos que assumam seu papel no meu organismo. Mas e se eu precisasse? Se eu, por exemplo, me perdesse no meio da floresta, eu caçaria para me alimentar? Sim, pois seria uma decisão de sobrevivência e eu realmente precisaria comer carne para minha sustância, mas assim, no meu normal cotidiano, não tenho essa necessidade, então eu evito, por questões éticas, já antes explicadas.

Eu me sinto mais humana sem comer carne, porque tenho total discernimento de que não somos superiores a nenhum animal em nível existencial e que nosso ecossistema precisa de todos para que o equilíbrio ecológico continue estabilizado, bem, talvez não do ser humano, mas aí é outra história. Valorizo a vida animal e sua relevância para a Terra, também sei que animais possuem sentimentos e sei que nenhum ser vivo gosta de ser confinado ou maltratado, tenho empatia com animais, porque como eles, somos animais, não escolhemos nascer humanos assim como eles não escolheram nascer vacas, porcos, galinhas.

Dizer que os animais foram criados para a nossa alimentação é ignorância e vai contra os conceitos de Darwin e da evolução, é mais uma falácia religiosa/ideológica do que um argumento embasado e concreto. É prepotência e ignorância achar que o mundo a nossa volta foi criado para satisfazer as necessidades humanas.

 A pecuária é a prática que mais prejudica o meio ambiente, o desmatamento acirrado para a introdução de gados de corte está desenfreado na nossa floresta Amazônica, sim, gado na Amazônia, a flatulência da vaca contribui com 23% para o efeito estufa, "ah então é por isso que precisamos comê-las", não, é por isso que devemos boicotar. Quanto mais as comermos, mais aumentará a pecuária por causa da demanda, os produtores não se importam com o meio ambiente, eles querem vender seus "produtos" e obter seu lucro. "Ah mas aí temos os campos de soja que também prejudicam o meio ambiente", sim, a soja cresce em grande escala em nosso país, tanto que a última fronteira agrícola em expansão (MATOPIBA) está localizada no Brasil, mas para aonde vocês acham que essa soja é destinada? O óleo de soja é praticamente um resíduo, uma pequena porcentagem vai para alimentos industrializados, e a grande parte? Para aviários como ração, alimentação animal. Ou seja, é um ciclo.

Enfim, esse último parágrafo foi só um argumento, nunca impus a ninguém minhas ideologias alimentícias, nunca obriguei ninguém a se tornar vegetariano ou critiquei alguém de maneira acometida por comer carne, eu sempre acreditei que foi uma melhor escolha pra mim e quando alguém se dispõe a me ouvir e a entender minha visão, eu explico. Assim já fiz muitas pessoas se tornarem vegetarianas, não impondo, explicando, ampliando visões. Porém, eu já tive que ouvir muita falácia, imposições e críticas de pessoas que comem carne.

Minha decisão é ética e racional, e eu fico feliz em saber que muitas pessoas também estão começando a ver o mundo de outras maneiras e estão aderindo um modo de vida que consideram mais ético e justo, acredito que seja isso que nos torna humanos.

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