quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Contrastes


 Presenciei ontem duas cenas, com intervalo de 10 minutos entre elas, que me fizeram refletir sobre minha vida inteira, talvez sobre uma sociedade inteira, um país inteiro.

 Eu estava em uma loja de instrumentos musicais, em Passo Fundo, quando um menininho, meio acanhado, entrou na loja. Como eu sou uma pessoa empática e observadora, gosto de analisar pessoas, situações e o mundo, lembro de cada detalhe e pude interpretar a cena inteirinha, cheia de sentimentos. O menino tinha em torno de 12/13 anos, era baixinho, queixo fino, olhos bem grandes e esbugalhados, negro (de pele mais clara), vestia um moletom largo e uma mochila preta surrada, provavelmente voltava de uma escola pública. Entrou meio envergonhado, talvez acostumado com olhares tortos do tipo "ah, um moleque!", principalmente entrando em uma loja onde ele sabia que não poderia comprar nada ali. Infelizmente, ele provavelmente já tenha consciência sobre como é a exclusão social, mesmo se ele não conhecer esse termo. Mas enfim, o atendente foi até ele, como é de costume dos atendentes, porém os dois ficaram em silêncio, o menino não falou nada, ficou mais enrubescido ainda. O que mais me encantou foi a maneira com que ele começou a olhar para os instrumentos, com os olhos brilhantes de um sonhador, uma curiosidade e fascinação imensa por tudo aquilo! Não pude evitar de sorrir, não consegui tirar os olhos daquela figura singular. O moço que o atendeu começou a tocar um tecladinho, ele começou a sorrir de orelha a orelha, olhando pro atendente, e ele olhou para mim também (eu também estava sorrindo), fascinado, quase como um cientista descobrindo algo novo, pude sentir o júbilo dele. Ele logo partiu, com o mesmo semblante com que havia entrado. Fiquei pensando nesse menino, queria fazer alguma coisa... Ele poderia ser talvez um Beethoven, um Mozart, ele pode ser dono de um talento incrível, seus olhos denunciavam seu encantamento pela música, mas o que pode separar ele de ter um grande título musical algum dia, são as oportunidade$.

 10 minutos após, entra um pai com seu filho. Moletom de escola particular, em torno de 14 anos, ambos brancos. Foi comprar uma guitarra, escolheu a que mais gostou, o atendente engatou a guitarra na caixa de som e ele começou a tocar! Ele já tocava muito bem, talvez deve ter feito algum curso, e tocava ótimas músicas. "O som dessa guitarra é muito incrível!", falou o menino empolgado. O pai dele ouvia orgulhoso. Fiquei feliz por eles também, o menino era realmente talentoso, e o pai reconhecia isso e investia nisso. A guitarra era de quase R$3.000 à vista. Não fiquei até ver se foi realmente aquela com que ele ficou, mas provavelmente ele não sairia de lá de mãos vazias.
Em 10 minutos, vivenciei, de forma intensa, o contraste da desigualdade social na nossa sociedade.
Vocês entendem? Vocês, o pessoal da MERITOCRACIA, vocês realmente entendem? É tão fácil para nós, que podemos investir na nossa carreira, nos nossos talentos, nos nossos dons, achar que o "esforço" é o suficiente para a obtenção de sucesso.

 Ainda não acabou: Hoje, sábado à tarde, entrada do Bourbon, um menino de uns 14 anos, também negro, num frio de 8 ºC e um vento mais gélido ainda, vendendo mandolato de chinelo de dedo e calção. Meu coração apertou de uma maneira que não consigo explicar, eu tenho uma tendência a me condoer com demasiada frequência pelas injustiças do mundo, realmente mexe comigo. Isso também me fez refletir.

 Quem sabe o menor que te assaltou semana passada não estaria tocando um instrumento ou lendo algum livro no momento em que ele lhe abordou se ele tivesse a oportunidade de ter um instrumento ou tivesse uma boa estrutura familiar que o incentivasse à leitura e aos estudos?

 Ninguém vira bandido porque quer, um dos maiores problemas da sociedade é achar que bandido é um problema pessoal, não social. Enquanto pensarem que a criminalidade se combate matando, colocando menores na prisão, desprezando, a criminalidade continuará, e aumentará, porque não estaremos visando na real disfunção: a falta de oportunidades, a educação, as condições dignas de vida de um ser humano em sociedade. Mas é muito fácil pensar pequeno mesmo, acomodados em nossos mundos perfeitos, nunca fomos tentados ao mundo do crime, pois estamos ocupados estudando, fazendo cursos, gastando mais de 100 reais em cada balada que vamos... Muitas coisas se tornam invisíveis pra nós.

 É muito fácil reconhecer o menor infrator, é muito fácil julgá-lo, difícil mesmo é se mobilizar com os menores sem condições que tentam ganhar a vida vendendo doces no frio, sonhando com um instrumento no qual seu dinheiro jamais poderá comprar. São invisíveis pra nós, só nos importamos com eles quando a cultura do crime corrói seus sonhos e arremata suas vidas, aí sim, percebemos a existência dessas pessoas que a sociedade condenou.

 Jamais vou esquecer do olhar sonhador daquele menino, espero que o nosso ódio e o nosso preconceito não estrague a sua inocência.

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