quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Minha "melhor amiga" da adolescência: a depressão

 "O sofrimento evolui a alma".

 Eu tinha 13 ou 14 anos, quando conheci a depressão. Eu não era fraca, eu nunca fui fraca, até porque, depois de ter ficado nela por dois anos, eu saí dela completamente sozinha. Mas eu ainda carrego os remanescentes da sua companhia comigo, porque a depressão fez de mim o que eu sou hoje, e eu gosto do que eu sou.

 Eu sempre senti demais, sempre me aprofundei nas coisas da vida, nos pensamentos, sentimentos, sensações e dores, isso desde criança, lembro que uma vez, na escola, uma professora duvidou da autoria do um texto meu, pois ele era "profundo demais para que uma criança o tenha escrito". Vivia constantemente atormentada por uma sensação de que não me encaixava neste mundo, daí principalmente a minha necessidade de fuga da realidade na infância, meus livros de contos de fadas, meus amigos imaginários, meus mundos fantasiosos criados na minha cabeça, meus refúgios.

 Acredito que seja comum, em um mundo extremamente funcional, que as pessoas mais intrínsecas, mais essenciais, sintam-se desajustadas, incompreendidas, deslocadas, perdidas.

 E lá estava eu, não querendo me limitar, em um mundo cheio de regras...

 Tive um choque de realidade quando saí da minha infância, por mais que eu fugisse dela, a realidade me engoliu, me afoguei em um poço de incompreensão, impotência (tinha necessidade do extraordinário e me sentia mórbida demais para fazê-lo) e sonhos inalcançáveis, uma mente conturbada e turbulenta, com 12 anos, toda a minha ingenuidade, minhas fantasias, meus amigos imaginários, me abandonaram. Eu estava sozinha.

 Passei grande parte da minha adolescência tentando me encaixar em algum lugar, em alguma "tribo", em algum grupo. Tentei me moldar várias vezes a fim de me encaixar em algum quebra-cabeça, passei a trocar meus gostos musicais e meus assuntos para me encaixar com minhas amigas (lembro que parei de assinar a revista Recreio que eu amava para assinar a Capricho), passei a me vestir como meninos, jogar futebol, agir como eles, para me encaixar com meus amigos... Me dei melhor como menino haha, mas confesso que eu sempre me senti... vazia, em todos os casos. Eu sabia que não fazia parte de nenhum grupo, me sentia estranha neles e consequentemente, era tratada de uma maneira diferente. Eu estava sozinha, novamente.

 Até hoje lido com meus problemas sozinha, tenho dificuldades em desabafar, pois fui obrigada, desde criança, a carregar o peso do mundo sozinha nas minhas costas, e lidar com ele.
 Minha depressão foi oscilada, oscilada por momentos de devastação e de destruição, melancolia e mesmice, mas também, por momentos de voracidade por libertação, rebeldia, teimosia, não aceitação da realidade e desobediência ao convencional.

 Eu era complicada, eu sei. Tinha oscilações de humor, crises de isolamento e de raiva. Culpava muito as pessoas por virarem as costas para mim, sei que eu era complicada, mas eu me ausentava porque eu precisava de ajuda, não de atenção. "Quem muito se ausenta, talvez só esteja precisando de um abraço amigo..." Essa incompreensão hoje me fez ser uma pessoa extremamente empática, eu tenho muita facilidade em entender sentimentos alheios e em ajudar pessoas, me colocar no lugar do outro, vejo que as pessoas sentem isso em mim, elas mal me conhecem e parece que já começam a falar sobre a vida, pedir conselhos, como se eu transpassasse um certo consolo a elas... Gosto de trazer esse conforto para as pessoas, pois foi um conforto que eu nunca tive. A depressão deixou suas "boas impressões" em mim também, muitas das pessoas se impressionam com a minha facilidade em compreender os sentimentos delas, muitas vezes faço elas perceberem coisas delas mesmas que nem elas percebiam, mas não é tão impressionante depois de passar 2 anos digerindo qualquer sentimento, esmiuçando qualquer emoção, se aprofundando em qualquer pensamento, na verdade, você começa conhecer os sentimentos, de tanto que você os sente.

 A verdade é que, até hoje tenho dificuldades em entender meus sentimentos, mesmo que eu fique debruçada sobre eles tentando resolvê-los como um enigma, porém, com as outras pessoas, tenho enorme facilidade em ajudá-las. Tenho uma frase de quando eu tinha 13 anos: "Me sinto limitada em palavras para descrever tudo o que eu sinto, às vezes parece que tenho sensações e sentimentos que ainda não criaram nomes para eles." Sempre senti que o que eu escrevia era insuficiente, sempre teve algo a mais dentro de mim querendo sair (por isso escrevo DEMAIS e falo DEMAIS). Escrever sempre me fez tão bem, sempre foi o papel quem muitas vezes me ouvia, eu simplesmente tirava um pouco do peso das costas quando escrevia... Ainda tiro, como agora.

 No momento em que parecia que o mundo havia virado as costas para mim, eu me voltei contra ele. Novamente, queria fugir da realidade, e novamente, encontrei alguns refúgios, mas nenhum dele foi uma pessoa. Dos meus 13 aos 15 anos, foi a idade em que eu mais li livros, me tornei uma pessoa complemente sozinha, passei por considerar a solitude a minha melhor companhia (Thoreau). Li mais de 200 livros, poesias e poemas, desenhei mais do que jamais havia desenhado, assisti tanta coisa, aprendi tanta coisa, caminhava pela natureza, identificava constelações, conheci tantas músicas, escrevi tantos textos e poemas... novamente, criei minha própria utopia, meu próprio mundo. Vivia pesquisando, sonhando, via aquelas paisagens, aqueles lugares solitários, cheios de montanhas e árvores robustas... Eu imaginava minha libertação de dentro do meu quarto, mas na impotência de alcançá-la, como se eu estivesse presa. Porém eu não nasci para viver presa, meu espírito é selvagem, eu sabia que teria que conquistar minha liberdade, e eu a conquistei.

 Na escola, sempre tinha muitas faltas, pois não tinha vontade de ir para a aula, sempre chegava atrasada. Não estudava, nas aulas eu era muito distraída (às vezes tinha a sensação de que estava sozinha na sala, mesmo com meus colegas ao lado e o professor dando aula, lembro que podia até ouvir o silêncio da sala vazia), conversava (sim, explico isso adiante), porém, sempre obtive notas muito boas, porque eu sempre fui curiosa e os mistérios do mundo me atraíam. Como disse Herman Melville, em Moby Dick, "Tenho um desejo insaciável por tudo o que é distante". Tudo o que era distante desse mundo, que fugia do convencional, da realidade alcançável, me fascinava, aí comecei também meu amor incondicional por astronomia, pelo universo, pela imensidão... Quando me sentia sozinha em meio às pessoas, lembrava da imensidão do universo, continuava a me sentir sozinha, mas não em relação às pessoas, em relação ao universo, e isso me fazia bem, parecia que não era só eu quem estava sozinha...

 Fui uma criança muito curiosa, vivaz, esportiva, sorridente, que adorava brincar em meio à natureza, coletar folhas, pedras, conchas, flores, subir em árvores, pegar insetos, subir em árvores, nadar em rios... Incentivada principalmente pelo meu pai. Eu nunca perdi isso, ainda sou essa criança, mas a depressão se sobrepôs à minha vitalidade. Eu sempre fui uma pessoa apaixonada pela vida, curiosa, mas também sempre tive tendências ao existencialismo extremo.
 Eu não gostava de aparentar ser uma pessoa infeliz, nunca gostei, por isso mesmo sempre tentei disfarçar o máximo possível minha depressão, não queria parecer fraca ou desanimada, por isso mesmo socializava, contra a minha vontade. (Por isso também nem sempre as pessoas percebem quando alguém está com depressão)

Mas a verdade é: eu nunca fui anti-social, porém tinha dificuldades em socializar com muitas pessoas, pois seus pensamentos e suas conversar eram, de certa forma, superficiais, o que é normal para uma adolescente de 14 anos, contudo, a depressão me fez ignorar tudo o que era fútil e superficial na vida, não sabia mais falar de frivolidades, não me interessavam mais as instigações da adolescência, parecia que eu tinha amadurecido muito antes, sempre me diziam isso, que eu era madura demais pra minha idade... De certa forma, foi bom, mas foi solitário. Eu sempre gostei de socializar, mas com pessoas com que eu sentisse aquela conexão, com pessoas que as conversas fluíam e iam até as mais altas horas, com pessoas que nem o silêncio era constrangedor, que no silêncio, vocês se sentiam, sentiam a presença uma da outra, pessoas em que você não se via obrigada a socializar, mas pessoas, que através das suas conversas, da sua presença, você conseguia sentir sua existência. Eu ainda sou assim, não consigo socializar prazerosamente com pessoas vazias, e admito: é a grande maioria delas, por isso me sentirei sempre meio solitária, mas hoje não tem problema, como eu disse: passei a apreciar a companhia da solidão.

 Meu relacionamento com minha mãe foi complicado, brigávamos muito, ela não sabia o que fazer comigo, mas ela via que eu não estava bem... Fui para psicólogos, psiquiatras... Suas conversas pareciam fúteis, como pode alguém entender o que eu sinto se essa pessoa nunca passou por isso? Às vezes eu nem queria ajuda, queria compreensão, queria que alguém entendesse meus sentimentos ou até se identificasse, assim, não me sentiria tão sozinha. Fui diagnosticada com transtorno de personalidade, nunca me falaram que eu tinha depressão, na verdade, eu descobri isso há pouco tempo, entendendo realmente o que era depressão. Terapias não deram certo, como eu disse, ninguém conseguia me ajudar, só eu era capaz de mergulhar nas profundezas do oceano dos meus sentimentos. Quando fui atrás de ajudas especializadas foi mais no final da minha depressão, eu já estava "apegada" a ela, não queria me curar, pois parecia que eu deixaria de ser quem eu sou, eu tinha medo de me tornar superficial, de perder meu lado artístico, de ser "feliz" vivendo uma ilusão e um conformismo vazio. (Hoje estou curada e não me considero uma pessoa nada vazia, pelo contrário. Sou a prova de que minha própria teoria não é válida)

 Pensava constantemente em suicídio. Sim, eu já tentei me suicidar. Hoje eu nem lembro bem como foi aquele dia. Pode parecer bobagem de adolescente, fraqueza, mas não, se as pessoas fossem empáticas, se as pessoas conseguissem sentir o peso que eu carregava... Talvez elas não me julgassem tanto. Eu não tenho vergonha disso, eu sempre fui forte, porque eu sobrevivi às maiores tentações da vida, eu sobrevivi à dor que consome a alma e que te devora, que te destrói, que te deixa morto por dentro, mas continua respirando... E aquelas pessoas superficiais, vazias? elas aguentariam passar por isso? Carregar um peso maior do que suas contas não pagas? Do que seus desejos fúteis não realizados? Ninguém é forte porque nunca entrou em depressão, a força das pessoas não é medida pela sua capacidade sucumbir aos sentimentos, pois muitos não sucumbem porque simplesmente ignoram os sentimentos profundos da vida, isso não é sinônimo de força, é de apatia.

 Hoje estou viva (tanto externa como internamente), e muito feliz, coisas incríveis na minha vida aconteceram e sei que ainda vão acontecer, conheci alguém muito especial que me fez acreditar no amor (acredito que seja o amor da minha vida) e fiz amizades incríveis, evoluí em tantas coisas... É claro que as coisas ruins ainda acontecem, mas hoje eu as compreendo, porque elas fazem parte da existência, apenas aprendi a me motivar na vida pelas coisas boas que acontecem nela.

 Eu queria tirar a dor, não minha vida, vou sempre compreender as pessoas que tiverem tendências suicidas pois eu tive, mas só uma coisa: amanhã algo sempre vai acontecer, as coisas boas sempre vêm, se você ainda respira, é porque ainda há muita coisa pra ser vivida, o mundo, mesmo sórdido, sempre nos dá motivos para levantarmos de manhã, e mesmo a morte parecendo uma solução, tenha um pouco de esperança, pois as coisas boas hão de acontecer, elas sempre acontecem, mas precisamos das coisas ruins, pois sem elas, como reconheceríamos a felicidade? Precisamos das duas, uma completa a outra, as duas são a vida.

 Eu me acostumei à dor, hoje ainda ela bate na minha porta e eu a deixo entrar, para que possamos conversar e falar sobre a vida, sobre os sentimentos... às vezes até a convido para me fazer companhia, mesmo que ela não tenha motivos para me visitar, pois ela já se tornou parte de mim, ela me evoluiu.

 A depressão me fez olhar para mim mesma, no processo da existência, da essência do ser. Me tornei poeta, filósofa, escritora, artista, escrevia tanto, tanto... Foi a época em que deixei de escrever contos de fadas (infância) para escrever sobre o ser, sobre o âmago de se viver. Eu me tornei uma pessoa mais profunda do que o normal, eu saía cada vez mais do oceano raso da vida para me afogar em suas águas profundas, as águas onde poucos se arriscam a mergulhar, pois lá a pressão é maior, e as chances de você se afogar são maiores, contudo, a vida é o oceano ao todo, não apenas sua superfície, e eu quero senti-la o máximo possível. Mas quanto mais fundo eu ia, mais sozinha e incompreendida eu me sentia.

 A depressão também me tornou independente, até hoje, sou muito independente, em vários quesitos. Não aceito ajuda das pessoas, pois acredito que só eu possa resolver meus problemas. Eu preciso me autoafirmar, elogios não têm efeito suficiente obre mim a fim de modificar minhas convicções sobre a minha própria pessoa, as críticas me afetam pouco, mais quando de pessoas muito próximas a mim, pois não gosto de machucar as pessoas que eu amo, não gosto de machucar ninguém, na verdade, pois eu já fui muito machucada.

 Sem ajudas psicológicas, sem remédios, sem companhias, com 15 anos, tirei os braços da depressão sobre meus ombros e disse: eu não posso mais deixar que você me acompanhe, o mundo é tão incrível, tantas coisas me esperam, eu quero viver tanto, fazer coisas extraordinárias, você me impossibilita de viver a vida como eu sempre tive vontade de viver. 

 Não pensem que isso foi de uma hora pra outra, não pensem que qualquer pessoa sai da depressão assim, sem ajuda externa ou especializada. Existe um grande senso comum e uma ignorância enorme por parte da população sobre pessoas com depressão, e isso só faz com que a situação das pessoas depressivas se agrave. Eu tive sorte, e tive uma força que, infelizmente, muitas pessoas não tiveram. Se eu tivesse aceitado a ajuda psicológica, se eu tivesse a ajuda, mesmo de amigos, eu não passaria todo esse tempo tentando me libertar da minha depressão, teria sido muito mais fácil e me pouparia de muito sofrimento.

 "O poeta está sempre em crise", eu, hoje curada, ainda carrego brotos de depressão, pois como falei, tenho tendências ao existencialismo, tenho crises existenciais com frequência, ainda tenho tendências a me isolar e eu ainda sofro com minha essência demasiado profunda. Ainda sinto demais, ainda me aprofundo demais, sou a mesma pessoa que era na depressão, porém mais evoluída, e não sou mais impossibilitada de viver minha vida da maneira mais voraz possível. E eu não considero isso algo negativo.

A verdade é que eu não quero abandonar esse meu intrínseco, meu existencialismo, minhas tendências depreciais não são um problema patológico para mim, meus "transtornos" de personalidade também não, não as vejo assim, as pessoas as veem porque não são convencionais na sociedade, não fazem parte de uma mente "saudável" (e viver das futilidades da vida é saudável?), esse meu lado me faz ver a vida com diferentes olhos, sentir a vida de uma maneira mais complexa, me faz viver a vida, não apenas seu lado funcional: crescer, estudar, socializar, se formar, graduar, constituir família, acumular bens materiais, morrer. NÃO, a vida é muito mais que isso, e eu me considero muito mais saudável assim do que se eu estivesse agora vivendo das superficialidades, das imposições da sociedade para sentir o conforto de me encaixar no rebanho. Eu não sou doente, eu não sou problemática, eu sou uma pessoa que ama a vida com ímpeto, que se aprofunda nela e que reconhece que a existência é muito mais essencial, não funcional.

 Como já dizia uma das minhas personagens preferidas:
"Existem tantas Annes diferentes dentro de mim. Às vezes acho que é por isso que sou uma pessoa tão problemática. Se houvesse apenas uma Anne, seria tão mais confortável, mas aí eu não seria tão interessante." 

 Ano passado fiz um teste vocacional na escola, como todos os alunos do terceiro ano. No final do teste, quase todos animados com o resultado "Deu o que eu queria!!", e eu estava ansiosa. A psicóloga me chamou para conversar e ela disse que teve complicações no teste, e então começamos a debater sobre isso, ela me disse "Você precisa de terapia, senão você nunca vai se encontrar na vida" e então ela me deu seu cartãozinho. Sei que ela não falou por mal e sei que ela queria me ajudar, mas eu saí da sala, rasguei o cartãozinho e quando cheguei em casa queimei o teste vocacional. Eu preciso de alguma garantia na vida pra quê? Me encontrar na vida, como? Me encontrar aonde? Com que finalidade? Me encontrar para me encaixar no lado funcional? Para me sentir conformada? Não, obrigada, foram EXATAMENTE essas incompreensões que me fizeram entrar na depressão. Eu amo a maneira com que eu vivo minha vida e com que eu interpreto o mundo. Kafka: "Eu sou livre, é por isso que estou perdido."

 Para superar minha depressão, parei de tentar me encaixar no mundo, me libertei mesmo. Parei de tentar me encontrar, parei de tentar controlar meus sentimentos, de tentar não sentir nada, de evitá-los ou lamentar pela minha profundidade. Eu a aceitei, aceitei também que não fazia parte de nenhum grupo de pessoas, em nenhuma tribo, porque eu era nômade. Eu enfim aceitei quem eu era, sem culpa e TUDO começou a melhorar, gradativamente, porém também, mais naturalmente. E quando parei de tentar me encaixar, as pessoas simplesmente começaram a vir até mim, sem meu esforço, pessoas de todos os grupos, percebi que me dava bem com todos, mas não fazia parte exclusivamente de apenas um deles, eu era todos eles. 

 Esses dias me falaram: "Eu queria ser como você Tau, sempre alegre e extrovertida"... Hoje eu sou, eu não nego, não sempre, porque ainda carrego muitas dores em mim (mesmo que eu ainda consiga disfarçar em público), contudo, já me fechei demais à vida que hoje, hoje eu me libertei, hoje eu só quero sorrir, das mais idiotas coisas, a vivacidade me consumiu, o amor à vida, a vontade de conhecer o desconhecido, não apenas estudá-lo. Eu passei por um longo processo existencial para ser quem eu sou hoje, e eu não nego que me orgulho de quem eu sou e das minhas capacidades, porém, se eu não tivesse tido depressão, muitas coisas em mim seriam diferentes. Jamais abandonarei o que eu me tornei na depressão, com ela eu pude entender a vida, entender as pessoas, ela, apesar de ter me destruído, existiu para que eu pudesse colocar de volta peça por peça da minha pessoa, para compreender minha existência, minha vida e o mundo.

 A depressão me amadureceu, me fortaleceu, hoje sinto que posso enfrentar o mundo de uma maneira que jamais senti. Hoje, sinto que minha depressão se tornou um contraste da minha felicidade atual, estou cheia de sonhos, cheia de objetivos, cheia de alegrias, com uma vontade de conquistar o mundo... Sinto um júbilo enorme todos os dias em que acordo, para compensar aquelas manhãs monótonas em que não tinha motivos para acordar... Ajudei tantas pessoas, superei tanta coisa, e sinto que me torno, a cada dia, mais forte.

 Eu ainda me sinto perdida? Sim. Porém me sinto livre, se eu não estivesse perdida, não me sentiria livre. Ainda me aprofundo em meus sentimentos, porém, eles não me destroem mais, apenas me evoluem. Tenho prazer em sentir demais, pois assim sinto que estou mais perto da existência humana, da "alma". O que eu serei na vida? Funcionalmente? Não sei, tenho muitas vontades, porém essencialmente?... Eu serei A vida.

 Hoje sou engajada nas causas sociais, principalmente porque a realidade é segregacionista e injusta, a sociedade é déspota e cruel com quem não se encaixa em seus padrões e imposições, e eu sofri com ambas. Faço tudo o que posso para mudar o mundo ao meu redor e estou sempre disposta a ajudar as pessoas, principalmente as desajustadas, seja da vida ou desajustadas do âmbito social (minorias), pois muitas vezes elas não conseguem ver a capacidade que elas podem ter de mudar o mundo ao seu redor. "Se você não se encaixa no mundo, pode ser porque você nasceu para mudar ele." 

 *Se você chegou até aqui, muito obrigada. Você leu grande parte do meu coração e pôde ler palavras que eu escrevi com lágrimas nos olhos, você conheceu um pouco mais da minha alma profunda e dos meus pensamentos conturbados...  Decidi publicar esse texto porque sei que não sou a única pessoa que já passou por isso e o quanto eu gostaria de poder ter lido palavras semelhantes naquela minha condição. Se você passou e está passando pelo mesmo, não desista, o mundo se tornou mais colorido do que ele sempre foi depois que enfim superei minha depressão, e a vida? Ela se tornou mais... viva. Não perca a sua esperança na vida, dê uma chance a ela de te surpreender, mas também ajude-se e aceite ajuda, busque ajuda, fale sobre seus sentimentos e abra-se para as pessoas que você ama. As coisas sempre melhoram... eu sei, eu passei por isso, não tenha medo. ♥


Um comentário:

  1. great!
    Sobre as varias Annes dentro de ti , o livro "O Lobo Da Estepe" de Herman Hesse fala sobre isso de forma interessante.

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