quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Lacrimosa

 Insólita, ela vaga em si
 Os ventos gélidos congelam seus prantos
 Para que eles permaneçam eternamente em sua pálida derme

 Em sua nuvem de lamentos
 Lacrimosa, vulgar em sua noite
 Seu corpo despido, com curvas de poesia rimada
 Chora suas dores para o céu sem estrelas

 Seu corpo lasso dançante
 Em sua lânguida indulgência
 Sonhos aturdidos, desejos inconsequentes
 Não há lugar para o imaculado
 Em seu destemido ventre

 Lacrimosa, o opróbrio
 Nem o homem mais sóbrio
 Deixou de apedrejar suas dores
 Lacrimosa, eles dizem, a dama sem valores

 Mas ela não teme a morte
 Lacrimosa, mãe de suas lamúrias
 De uma alma violada
 Pelos homens e suas injúrias

 Ela não teme a morte
 Tudo o que havia de vívido em si já pereceu
 Sua carcaça de lamentos
 Fomentada por tormentos
 De uma vida que não viveu

 Sua liberdade foi arrancada
 De seu seio sedento
 Seus amores foram esmagados
 Pelos ávidos punhos de quem nunca entenderá
 Uma mulher com seus próprios sacramentos

 Lacrimosa, a lua te chama
 A buscar tua ébria liberdade
 Teu seio de leite, de vida
 De mulher
 Na terra de Eva serás absolvida
 Com todas as outras
 Que já padeceram da mesma dor incompreendida


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